Revista Rua


Guerra Fria, Sangue Frio: As Conexões entre o Cinema de Terror e a Paz Armada
Cold War, Cold Blood: The Connections between Horror Movies and the Armed Peace

Marcelo Eduardo Marchi

“simpáticos ao diabo”[1], e massacres no Vietnã perpetrados pelos jovens soldados do Tio Sam.
Para King (2003: 115), “O Exorcista [...] aposta na inquietude gerada por mudanças de costumes.” O autor desenvolve o tema, dizendo:
           
[...] esse filme, na realidade, trata essencialmente das explosivas mudanças sociais, um enfoque exaustivamente refinado por toda aquela explosão de juventude que aconteceu no final da década de 1960 e início de 1970. Foi um filme para todos aqueles pais que sentiram, numa espécie de terror e agonia,que estavam perdendo seus filhos e não conseguiam entender por que ou como isso estava acontecendo. (Loc. cit.)
                    
O filme é uma grande parábola sobre o choque de gerações e o relacionamento conflituoso entre pais e filhos. Isso é refletido não somente pelo núcleo familiar dos MacNeil, com a mãe que cria a filha de doze anos a despeito do pai ausente, e que, repentinamente, depara-se com uma personalidade tão distinta daquela a quem deu à luz que mal consegue reconhecê-la, como também pelo relacionamento do padre Karras (Jason Miller) com sua mãe (Vasiliki Maliaros) e seu tio (Titos Vandis).
Karras não é apenas padre, mas também conselheiro psiquiátrico da diocese. Teve sua formação acadêmica, em conceituadas universidades americanas, paga pela Igreja. Seu “lado psiquiatra” poderia, segundo seu tio, ter-lhe proporcionado fama e riqueza, mas seu “lado padre” obriga-o a um voto de pobreza que o impossibilita de cuidar como deveria da mãe velha, doente e à beira da senilidade. A crise entre vocação e sucesso financeiro que atormenta Karras e ajuda a minar sua fé em seu papel como sacerdote e em Deus é intensificada pelo agravamento do edema de sua mãe, que a leva à internação em um sanatório, e, pouco depois, à morte. Mais tarde, durante o exorcismo, imagens, citações e a voz de sua mãe são evocadas pelo demônio na tentativa de desestabilizá-lo. No entanto, é justamente nesse ritual que Karras encontra a chance de um resgate de sua crença em si mesmo e na força superior pela qual trocou dinheiro e reconhecimento.
No lar dos MacNeil, no início do filme, a harmonia reina sem grandes abalos. O único fator de desagregação é o pai de Regan (Linda Blair), que se separou da família e


[1]Alusão à música de 1968, “Sympathy for the Devil”, dos Rolling Stones.