Nossa análise parte do aparecimento do Plano-Piloto para a poesia concreta, conceito acionado por Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Os artistas citados dão início à jornada de novos jogos poéticos no cenário nacional, maquinando poemas que usam de diversas linguagens e se articulam para tensionar a produção da tradicional forma lírica que se estabeleceu, por séculos, na literatura. Tomando como base o contexto da produção dos três artistas citados, vamos refletir sobre como há um diálogo entre o conceito de Plano-Piloto na literatura, na arquitetura e na política entre meados dos anos de 1950 a 1960 (com a construção de Brasília e a ambição de produzir um país futurista). O diálogo parte do pressuposto do aparecimento de novas tecnologias e da mudança de paradigmas no cenário brasileiro por parte de um processo político, artístico e arquitetônico que estava em articulação.
This article analyses how J.K. Rowling's discourse aligns with a transphobic discursive formation, mobilizing Materialist Discourse Analysis (MDA). The corpus, therefore, includes five tweets by J.K. Rowling about transgenderness published between 2019 and 2020. The theoretical-analytical device employed is based on Pêcheux (1983), Orlandi (1990), Marie-Anne Paveau (2013), and Cristiane Dias (2016), in a constant interplay between discursive theory and corpus; in addition, it promotes a relationship (not without questioning) with the perspectives of Queer Theory by Butler (1988), Bagagli (2019), and Nascimento (2021). The analyses allowed us to understand how Rowling's tweets (re)produce discourses that corroborate the erasure of trans people, based on the resumption of binary and biological formulations about gender.
Este artigo analisa dizeres sobre o filme Barbie (2023), para compreender os deslocamentos de sentidos que atravessam esses enunciados, bem como as diferentes posições-sujeito neles inscritas. A análise está ancorada na Análise de Discurso materialista e podemos dizer que os sentidos produzidos ressoam dizeres em circulação no imaginário social e em diferentes esferas do espaço urbano ligados à oposição entre feminismo e patriarcado. A partir do modo como os enunciados em análise se ancoram no interdiscurso, observamos o funcionamento de formações discursivas conservadoras, que associam o feminismo à subversão da ordem e ataque à família, em confronto com formações discursivas feministas, que reafirmam a luta por direitos, equidade e resistência ao machismo estrutural.
Este artigo objetiva compreender o modo de habitar a fronteira através da análise dos nomes de residenciais da cidade de Bagé. Para isso, discute sobre o conceito de fronteira e aborda aspectos históricos do processo de urbanização do município. Sob a perspectiva da Semântica do Acontecimento, em diálogo com autores inscritos na Análise de Discurso, toma a cidade como espaço simbólico e discursivo e analisa como as designações desses nomes em dadas cenas enunciativas produzem sentidos sobre o modo de habitar a fronteira Brasil-Uruguay. O corpus da pesquisa se constitui de sete (7) nomes de conjuntos residenciais. A análise mostrou que os nomes significam, de um lado, a história do processo de fundação do município e a influência colonial lusa e, de outro, a relação histórica com a região do Prata.
Investindo em uma leitura-trituração (Pêcheux, 2016) da obra da cartunista Laerte, este artigo compreende a análise discursiva de três tirinhas que, apesar de não terem sido compostas originalmente como uma narrativa interligada, são concebidas aqui como uma trilogia urbana acidental. À luz da noção de narratividade urbana (Orlandi, 2004), entende-se, neste recorte discursivo (Orlandi, 1984), que as tirinhas textualizam, enquanto objetos simbólicos, o processo de inscrição do sujeito em uma discursividade urbana regida por “leituras de exclusão” (Zoppi-Fontana, 1999). Neste gesto de interpretação, as tirinhas funcionam como “flagrantes”, em analogia aos flagrantes urbanos (Orlandi, 2004), sítios de significação que fazem emergir, enfim, uma cidade.
Este artigo analisa duas obras publicadas por redes transnacionais (RedTraSex e Red Umbrella Fund) e explicita como essas publicações produzem efeitos de sentido a partir da Análise de Discurso materialista. Em ambos os livros há a emergência de lugares de enunciação de trabalhadoras sexuais organizadas em movimentos putafeministas, rompendo com séculos de silenciamento. Por meio da noção de porta-voz, se marca a construção de uma memória coletiva e a disputa por legitimidade no espaço público da cidade. As obras funcionam como gestos de resistência e, cada uma a seu modo, expandem as representações associáveis aos trabalhos sexuais e promovem a autodesignação, transformando as trabalhadoras sexuais de objetos dos discursos dos outros a sujeitos de seus discursos.
Nas eleições de 2024, alguns windbanners de campanha de uma vereadora de Porto Alegre/RS foram vandalizados. Um grupo de mulheres reuniu-se em uma praça central da cidade, resgatou uma peça, costurou e recolocou em seu suporte. O presente artigo apresenta uma análise de um vídeo que retrata essa ação coletiva. Concomitantemente, discute a destruição e a reparação no campo da política e aborda o remendo como ponto de captura do olhar do passante.
É objetivo deste artigo apresentar relatos de uma mulher negra em situação de rua em Copacabana, no Rio de Janeiro. Mais especificamente, buscamos histórias de vida atreladas à dimensão da invisibilidade social, da raça e do gênero na rua. Partindo do conceito de " interseccionalidade" (Collins; Bilge, 2021), dentro de uma perspectiva etnográfica, investigamos a influência do fator raça e gênero nas vivências de invisibilidade social, e essas narrativas são contadas pelo ponto de vista de uma integrante desse grupo em extrema vulnerabilidade. Para tanto, utilizamos o gravador de voz do celular para coletar as conversas em campo. Observamos na fala da entrevistada Léia que os pilares interseccionais de classe, raça e gênero são marcadores de diferença na condição em questão, fazendo a dinâmica da rua reproduzir um modelo de sociedade patriarcal e expor violências.
O artigo aborda o desastre de Mariana (MG), com foco nas transformações ocorridas na Igreja de Santo Antônio. O objetivo é analisar como a igreja, ao longo de diferentes momentos históricos, pode ser compreendida como um exemplo de heterotopia, conforme a noção desenvolvida por Foucault (1967). Para tanto, fundamentamo-nos nas reflexões teórico-metodológicas foucaultianas sobre as heterotopias. O artigo conclui que a identificação de heterotopias da Igreja Santo Antônio indica a coexistência de múltiplas realidades temporais e espaciais, oferecendo uma reflexão, por meio da metáfora do espelho, na qual a projeção que se faz entre a “Antiga Igreja Santo Antônio” e a “Nova Igreja Santo Antônio” não procede, pois as igrejas só se fazem como real, mas simbolizam apenas um reflexo do já foram.