Revista Rua


Do digital às digitais mo Sitio de Memoria (Córdoba, Argentina): (Re) Interpretações da História Política na cidade em movimento
From the digital to the fingerprints in the Sitio de Memoria (Córdoba, Argentina): the political History (re)interpretations in the city in movement

Angela de Aguiar Araújo e Luciana Leão Brasil

família), somam-se a um concerto de vozes. A heterogeneidade aponta para a incompletude dos dizeres e dos sujeitos, aponta para a dispersão, mostrando uma maneira significante de corporificação do discurso outro. Assim a família é convocada para atualização das demandas do desaparecido. São os nomes que compõem uma sociedade. Segundo Authier-Revuz (1998), a heterogeneidade mostrada altera a unicidade aparente da cadeia discursiva, pois o outro é inscrito no discurso: a família é inscrita no discurso. As paredes já um pouco deterioradas da fachada do museu indicam o passar dos anos abrigando as digitais que formam um nós sem a respectiva filiação. O nós das digitais podem indicar: os mortos (impedimento de requerer justiça), os desaparecidos, a família; em contraposição com o eles (Estado, perpetradores, regime político).
No texto o Enlace entre o pictórico, o político e o textual, Indursky (2011, p. 2), tece uma explanação sobre a obra A Câmara Clara: nota sobre a fotografia, de Roland Barthes. Em seu texto, Indursky analisa os conceitos de Studium e Punctum, de Barthes:
 
O studium inscreve uma foto como testemunho histórico ou político. Já o punctum vem quebrar o studium. Ele faz parte da cena e de dentro dela atinge o espectador. “O punctum de uma foto, diz Barthes, é esse acaso que, nela, me punge, (mas também me modifica, me fere)” (BARTHES, 1980, 1984, p. 46).
 
Ao pensarmos sobre essas noções nos é possível propor que a fotografia das digitais apresenta características do que Barthes nomeia de studium a partir do momento que os painéis com as digitais são inscritos em um espaço e tempo precisos como um testemunho, através de uma representação, de um momento histórico-político. Assim o studium configura-se como um espaço para a reflexão, convocando ou não para o debate das questões não resolvidas historicamente aqueles que transitam pelo espaço urbano. Segundo a teoria proposta por Barthes, o punctum é da ordem da emoção. Esta é materializada através do contato com o que está escrito, a exemplo, nos painéis das digitais. O “leitor” então dessas digitais entrará em contato com as emoções que essas convocam em relação aos fatos do passado, no presente caso, um sistema político repressivo. É o punctum que rompe com a arte dos painéis apenas como fruição artística. É ele que desregulariza o que está sendo visto meramente como observação de um grafismo forjado por um artista, as digitais. O studium capta o histórico, o punctum apela para as discursividades que são produzidas a partir daí na incompletude do visual. As “huellas” produziram, então, um movimento de acionamento na memória discursiva.