Dos não-lugares à cidade senciente


Lucia Santaella



Em um dos trechos de sua resposta à crítica elaborada por Neil Brenner, David Madden and David Wachsmuth (2011) ao programa de estudos urbanos, baseado na teoria Ator-Rede, de Bruno Latour e outros, que consta do livro Urban Assemblages: How Actor Network Theory Changes Urban Studies (FARÍAS e BENDER eds., 2009), Farías (2011) esclarece que uma questão central a ser colocada é se o estudo das cidades se coloca como uma instância de algo outro, o capitalismo, no caso, ou se a investigação pode também estar voltada para a cidade e a urbanização como um processo que se justifica por si mesmo. Neste segundo sentido, o autor levanta uma grande variedade de temas com que os estudos empíricos sobre as cidades têm de lidar: “gentrificação (aburguesamento, enobrecimento), turismo, movimentos sociais, ambientes de construção, naturezas urbanas, sistemas de transporte, mobilidades urbanas, mercado imobiliário, segregação espacial, exclusão social, migração etc.” Entretanto, o autor levanta uma diferença fundamental entre os principais pontos de vista adotados pelos estudos urbanos.

 

De fato, muitos desses temas exigem atenção detalhada ao papel desempenhado pelas economias políticas capitalistas. Mas as questões subjacentes, que temos de ter em mente, são como, por meio de cada um desses objetos, processos e fenômenos, a cidade e a vida urbana estão sendo literalmente reconstruídas e refeitas, como materiais urbanos, tecnologias e diferentes formas de vida urbana são compostos e se mantêm juntos na prática. Assim, ao observar as cidades, podemos saber mais sobre o capitalismo como uma forma de vida, embora não como uma lógica abstrata global impondo suas formas sobre os espaços locais, mas como um processo concreto que assume múltiplas formas até mesmo dentro de uma cidade (FARÍAS, 2011, p. 3).

 

As questões levantadas por Farías são oportunas para contextualizar o foco e o escopo do presente artigo. Embora não se caracterize como pesquisa estritamente empírica, o que se pretende aqui levar a cabo é uma discussão que se situa no segundo sentido da pesquisa urbana levantado por Farías, a saber, a investigação voltada para a cidade e a urbanização como um processo que se justifica por si mesmo e, neste caso, visando especificamente às transformações operadas nas formas de vida urbana pós revolução digital, naquilo que vem sendo chamado de cidade digital, cidade ciborgue, cibercidade, cidade interfaceada e cidade senciente.

 

1.Os não-lugares das megacidades

Em meados do século passado, cidades como Paris e Londres foram modelos de grandes transformações urbanas que vieram trazer consequências em todos os aspectos