
Há Sandy entre nós, mas é você quem mais julga
There is Sandy among us, but you are the one who judges the most
Aparecida Eule1
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5213-6247
Resumo: O trabalho tem como propósito analisar quatro músicas da artista brasileira Sandy: Me espera, Areia, Pra me refazer e Eu pra você, letras que preenchem os álbuns “Meu canto” (2017) e “Eu, voz, eles” (2023). Os princípios e procedimentos para a compreensão das canções partem da Análise Materialista de Discurso, que traz para a discussão a forma-sujeito, as condições de produção, identidades que atravessam as vozes e o ouvir do “eu” através de si mesmo. O texto interpelará o leitor a fim de fazê-lo questionar o papel do interlocutor e as formas pronominais eu, você, ele(s) diante de uma primeira voz que se compõe em feminino. Por fim, faz pensar: a relação sujeito x objeto; o descolamento do eles para ex-de-mim; e, por fim, a voz que se duplica em um interior para recompor em subjetividades.
Palavras-chave: Sandy; Subjetividade; Voz; Eu; Você; Ex.
Abstract: The purpose of this work is to analyze four songs by Brazilian artist Sandy: “Me espera, Areia, Pra me refazer” and “Eu pra você”, lyrics that fill the albums Meu canto (2017) and Eu, voz, eles (2023). The principles and procedures for understanding the songs are based on Materialist Discourse Analysis, which brings into discussion the subject-form, the conditions of production, identities that permeate the voices, and the hearing of the “I” through oneself. The text will challenge the reader in order to question the role of the interlocutor and the pronominal forms I, you, he, they in the face of a first voice that is composed in the feminine. Finally, it makes one think about the subject x object relationship; the detachment of they to ex-de-mim; and finally, the voice that duplicates itself in an interior to recompose in subjectivities.
Keywords: Sandy; Subjectivity; Voice; I; You; Ex.
Nota ao leitor
O presente texto adota um funcionamento discursivo que não se estrutura segundo o modelo analítico no qual o classificaria em um gênero textual fixo. A opção metodológica aqui mobilizada filia-se à Análise Materialista do Discurso, para a qual a interpretação não se apresenta como etapa posterior, mas como constitutiva do próprio processo de dizer. Assim, a análise não comparece em seção autônoma, mas integra a materialidade textual, manifestando-se nos deslocamentos enunciativos, nas posições de sujeito que se instauram e se confrontam, e na heterogeneidade constitutiva que atravessa a escrita.
A aparente dificuldade de leitura decorre desse modo de organização: o texto opera simultaneamente como objeto e gesto analítico, de modo que a compreensão requer acompanhar a dinâmica interna das vozes, a circulação dos sentidos e o trabalho simbólico que se produz na tessitura discursiva. Esta nota tem por objetivo apenas situar o leitor quanto a essa peculiaridade metodológica, sem alterar a proposta do texto, cuja análise se realiza no interior de seu próprio funcionamento.
O texto foi produzido em outubro de 2024, mês atravessado pelo simbólico do rosa e pela mística do Dia das Bruxas. Discursos que reproduzem o feminino. Por esta razão, o corpo do texto privilegia a arte, a estética, a memória, a fruição da língua. A leitura, para que seja fluída, aciona campos do saber hiperlinkados à teoria aplicada. É fato que a teoria e os dispositivos de análises invocados representam um outro fluxo discursivo, que, contudo, precisam estar acoplados em todo gesto de leitura.
As notas, em sobreposições, entrelaçam a materialidade discursiva necessária ao processo do imaginário. Elas são as chaves de interpelação que abrem a interpretação, todavia, a prática do sujeito-leitor que chega até aqui estará mais assegurada, caso decida-se por uma leitura para desfrute estético. As notas de rodapé, logo, garantem a trilha da cientificidade. Elas, na primeira versão, antes do parecer da banca desta famigerada revista, eram mais extensas por conterem citações e solidificação teórica. Após revisão, foram refinadas, e muito se optou por supressão e direcionamentos qualitativos aos textos de referência. Outras, tidas como essenciais, passaram a habitar o corpo do texto. Corpo esse feito do embate do sujeito autor com sua heteronomia.
Boa leitura, para os que navegam tranquilamente pelas tormentas da Análise Materialista do Discurso e para os que só querem sentir sua brisa.
***
Trago uma leitura a respeito das canções de Sandy e um ponto de vista sobre o(s) ex(es) dela e o meu. A sequência das músicas que aqui serão analisadas foi dada2 pelo aplicativo Spotify. Aqui se faz pensar o funcionamento dos algoritmos no/do processo de ranqueamento das produções musicais publicadas em redes sociais que funcionam como plataformas de circulação. Ao digitar Sandy, vieram músicas em ordem e daí se fizeram as análises. Nada mais aleatório, mas muito coincidente. Agora, o sujeito da análise, ao relatar e expor sua opinião do que vê/entende/sente/escuta, é fofoca? E se for, como a palavra do eu que vê, ouve, fala, ofende? Ei, Aurélio, seria um mal-dito3, ou quem sabe, a maldita palavra na rua?
Para dar base científica — gente, é necessário! — ao ato de falar do outro, a fofoca deve ser entendida como ato de fala que envolve o dizer sobre o terceiro que não está corporalmente/materialmente presente no momento presente da enunciação. Contudo, o terceiro torna-se a “fala” principal da fala. Ele/ela é mote, núcleo do sentido para ação do dito; conceituação concebida ainda no desejo do “eu” para fazer circular o outro por meio de formulações próprias “de mim” (que depois vira posse ou possessão do que está oblíquo e preposicionado).
É a pura manifestação em fala da imagem do sujeito/objeto que torna o outro objeto preposicionado na linguagem. Eu falo de mim, dele e dela. Mas enquanto falo dele/dela, também falo de mim. A fala fofoca carrega em si a materialidade da polêmica com relação à ética performativa do dito, o julgamento social/moral e de valor que a cerca — é o dito desautorizado para gozo, essa tal de polêmica. Assim como os boatos podem ser entendidos por Orlandi (2012) como gestos de interpretação para fazer do mundo sentido, a fofoca agiria na redução do mundo, dando sentido às relações cotidianas e íntimas. Não só, ao se fazer, sinaliza todo um complexo/contraditório “ambiente” de subjetivação. Um autêntico paradoxo para o sujeito que só existe quanto à publicidade de sua forma, dada em fala, no momento presente da enunciação. O “eu” que se torna mote/tema de ato de fala deveria se ofender por existir na forma de objeto no dizer do outro? Olha como os artistas vivem! Mas e o valor do dizer? Pode-se perguntar. Eu respondo, ele é contratual e ideológico, contraditório e heterogêneo, valorado e desvalorado pela memória e por condições socio/discursiva/materiais historicamente. Fato que nos ajuda a responder que valor uma pessoa tem para se dizer dela? Eu nem ligo, falem mal ou falem bem, mas falem de mim é pura arte política. Talvez o que importe é como — ô se fale de mim! Da minha pessoa, do meu indivíduo.
Aqui devemos deslocar a pessoa do indivíduo, o indivíduo do sujeito, o sujeito do discurso, o discurso da materialidade de Marx e da própria Linguagem. Por ser complicado, prefiro fofoca da Sandy. Ela agora é só forma-sujeito4: Sandy. É Pêcheux em prática. Veremos, então, abrir conceitos como o de espaço (semântico e sintático)5 e de efeitos de sentido6. A partir daí, torna-se possível discutir sentidos nela. Dupla, una, parceira, companheira, mulher, filha, irmã, princesa, esposa, popstar, artista, mãe, amante, compositora, letrista, primeira voz, neta e possível avó. Nestas posições há de haver ancestralidade. Forma-sujeito em condições de produção e forjada também em Linguagem. No caso da Sandy, misturam-se coisas de quatro décadas: canções, história, subjetivações, posições sociais, identidades, imagens, mídia, família, valor, dinheiro, memória7, etc. Nesse quadro, o estudo que aqui se apresenta continuaria ainda sendo fofoca de RUA8 ou de imprensa? E se for, qual seria o valor disso?
E se quem cometer tamanha ousadia de falar dELA for um EU9 do éter ou do heterônimo? Antes, por gentileza, me vejam em uma senhora que, neste instante, sente a intensidade do infeliz LED dos postes antes amarelos das ruas de Campinas? Com tanto brilho, posso me perder, por isso o método! Minha amiga Haroche10 já dizia que muita luminosidade também cega. Antes de me criticarem, entendam-me como uma velha voz que vem pedir a VOCÊ um favor.
Ajudem-me a julgar meu caso que estará no enunciado a seguir. Contudo, antes de prosseguirmos, é importante observar que, ao deixar em evidência o método, pode-se revelar um caráter do Imaginário (da tríade lacaniana) como potência discursiva também na descrição das práticas do dizer — e só assim eu justifico o que de mim. O método de análise precisará de autor, autores e autoras que será subsidiado pela Análise Materialista de Discurso. Metodologia que se faz saber de “procedimentos na busca das noções que vão construindo seu caminho e as possibilidades de analisar o discurso. Ele está, ao mesmo tempo, produzindo uma teoria e estabelecendo procedimento de análise na construção de um método” (Orlandi, 2019, p. 1430). “O método busca fazer lembrar (dos efeitos de sentido entre locutores), depois, fazer conhecer (as imagens sedimentadas: sujeito e referente), para, em seguida, extrair a materialidade deste conhecimento/pensamento no interior da linguagem” (Piantoni, 2024, p. 41). O enunciado:
— Se eu não sou o que sou, como posso ser? Pior, para que ser?
Já adianto, também na fofoca, a crise não está em mim e sim em um outro eu que também me pertence. Explico. Dias atrás, apareceram em casa, um dos meus filhos e uma das minhas netas. Em enunciações11 diferentes, mas com o mesmo enunciado: se eu não sou o que sou, como eu posso viver? Dei minha honesta opinião a ambos e em troca recebo uma contradição12 a ser resolvida.
Uma questão de Lógica13 e de Análise de Discurso Francesa. Por que francesa? Porque é mais elegante, quando não sofisticada. Lacan, Pêcheux e Foucault me convenceram de que ela tem as devidas interpretações das cenas14 que acontecem na coxia do dizer.
Na conceitual estrutura narrativa, já me inicio pela apresentação; sigo no conflito; paro com desfecho (o enredo é para você produzir o julgamento). A proposta é de você ser júri. Tornar o indeterminável “você” no determinado (júri) — dê tua opinião, ela importa (ou não)! Algo como o de fazer-se determinar ao ter que olhar por si própria uma outra coisa, Althusser explica isso? Realmente não lembro. Tem mais a ver com performances de espectadora, telespectadora ou fã. Sabe quando você fica fã de uma artista ou da história dela? E mais fã ainda porque ela (arte e história) mudou a si e a você ao ter que ouvir a própria diferença entre as duas coisas? E, ao compreender as diferenças, pode-se refazer em opiniões? Meio que isso: assiste à ficção, filma a trama, escuta, analisa e, em seguida, é você quem distribui quem é quem, ou, o que é o quê... o tal dos pingos nos is.
Talvez venham a me criticar pela falta de Clímax (2018). Se me permitirem, quero voltar à Rua, em outra ocasião, para expor as performances da sobrevivência que assisti e assimilei a partir do filme de Noé, ou melhor, Gaspar Noé.
Agora, meça minha saturação: tenho um filho que virou ex e que me pediu para expor seu caso aqui. E uma neta na posição de princesa que busca revelar seu drama por se sentir já rainha. Ambos me pedem, voz15 de passagem! Vó, me dê voz... vovó me dê vós! A quem você quer ouvir primeiro?
Devo estar atenta e dizer de mim — sou o eu que sou, senão serei não-ser em Pessoa. Ambos me desafiaram em: se eu não sou o que sou, como posso ser eu? Como uma boa árvore velha, posso fazer sombra!
Saí de entranhas da função autor. Pergunte a Orlandi, é a formulação da fórmula que me sustenta. Ok! Se é pouco e ainda não me autorizam a dizer, não me validam a falar e me colocam como agourenta que deve ficar na invisibilidade da noite, na possibilidade de inexistência, evoco aqui e agora Fernando em Pessoa. É outubro, posso invocar seu escrito para me autorizar a falar:
NIILISMO - EREMITA
O sujeito ao ser pensado como sujeito é objecto...
O não‑ser para ser não‑ser precisa ser, isto é, ter ser; isto é abstracto mas o argumento agora versa abstracções Metafisicamente, a inversa é igualmente certa. O ser para ser não‑ser precisa não‑ser.
Isto vem tudo de que não‑ser e ser são para nós ideias; nunca os podemos considerar absolutamente. Estão por isso sempre desmentindo‑nos. Não são senão pensados. Há sempre mesmo abismo entre eles e a nossa ideia deles.
Ora o Universo é pensado. Está, portanto, nas condições de ser apreciado (contingentemente) pelos argumentos de ser e não‑ser.
Se o Universo é o não‑ser absoluto, não existe; se é o não‑ser relativo é o ser.
Ora se o não‑ser para ser não‑ser tem de ser, se o Universo é o não‑ser, para não‑ser tem de ser, isto no que pensamento. Coincide, portanto, com o facto do universo ser (que nunca podemos eliminar). O Universo é, portanto, o não‑ser.
O Universo aparece‑nos como ser. É‑nos impossível pensá‑lo como não‑ser, e temos que pensar, se pensamos. Mas se pensamos o nosso pensamento, o Universo passa a ser não‑ser, porque antes do conhecimento (que é o pensar o pensamento) o Universo incognoscível imediatamente, é o não‑ser. Ora a filosofia é, ou o pensamento ou o pensamento do pensamento. O pensamento não é porque o pensamento é a simples ideia, o simples Experienciar. É, portanto, o pensamento do pensamento, mas o pensamento do pensamento não é, afinal, pensamento? É e não é. É o único pensamento diversificado. O sujeito pensado como sujeito é pensado, ipso facto, por ser pensado, como objecto, mas como objecto contraposto a todos os outros objectos concebidos pensa‑se em Deus, o sujeito substância dele próprio — pensando‑se, isto é, no que pensado, no pensar, pelo acto de pensar, pensado assim.
Mas porque havemos de preferir o pensamento reflexo ao pensamento puro? Porque, ou o pensamento é critério de verdade ou não. Se o pensamento é critério de verdade, não pode haver erro em pensá‑lo. Se ele pertence ao objecto é tão legítimo pensá‑lo como ao resto do Objecto. Se não pertence tanto mais o é, porque é o criador do Objecto. Mas não será impensável? Como objecto é, e vamos dar ao caso anterior. Se não é, [critério de verdade] o Universo, que é pensado, e assim, porque assim pensado, é o não‑ser, mas não‑ser é do pensamento. Mas visto que do pensamento não podemos sair, para o pensamento, se o pensamento não é critério de verdade, o pensamento é não‑ser. (A única coisa que o pensamento não pode pensar como não ser é ele próprio. É esta a base do dictum basilar de Descartes).
Visto ser‑nos impossível conceber o pensamento em si como não ser, excepto no pensamento pensado, e ele, para ser objecto da filosofia, é pensado que existe, o Objecto, ab initio concebido como oposto ao pensamento é, portanto, para o pensamento formalmente não‑ser. Pensar é irrealizar: e se irrealizar para ser irrealizar precisa ser realizar, pensar é ser.
Portanto, o Universo não existe. O que existe não sabemos.
Agora, relaxem, se acham que sou uma alucinada que acabou de habitar seu universo e não fui nomeada, se acalmem. Sou heterônimo de umzinho aí ainda nem conhecido. Para facilitar: vim de um sujeito qualquer. Aceite, portanto, se vim de um sujeito qualquer, posso, logo, assumir qualquer posição em seu ideal de saber. Simples assim, mas sofisticado e elegante.
Leitora amiga (a vaca que dá leite é leiteira, algo bem próximo ao filha da puta que o pariu), se algum mamífero macho que não entende o feminino da harpia que me garra, poderá vir com a opressão:
— Tenha bom senso, ave de rapina! Veio para nos confundir. Diga LOGO o que quer para LOGO parar de mentir! És esfinge por acaso?
Só responderei:
— Bom homem, leia Nietzsche16 para ver a mentira de perto. Depois compreenda Derrida17 no erro. Por fim, compreenda que ficção é diferente de falsidade. Zaratrusta18 é um morfético por só anunciar o super-homem. Depois, não me venha com generalidade enquanto me imponho no dizer de gêneros (seria generalidade também a derivação gênero?). Minha intenção não é sem boa-fé, pelo contrário, meu testemunho é verdadeiro! E ainda, posso estar na verdade ou falsidade, me enganar, e me manter sem mentir.
Mas, deixando esse hipotético para lá, quero falar do trabalho do meu filho, que também é fruto meu! Oh... certo, ex-. Mas convenhamos, é tão bom falar de nós e dos nós dos ex(es) de nós, MULHERES. Por isso escolho apresentar a imagem de uma neta, Sandy em seu último álbum, 2023, ao vivo: NÓS, VOZ, ELES. Gente, se estamos no Simbólico19, e posso ser uma mãe coruja, uma vó/voz coruja também posso ser.
Fico imaginando (ela) naquela relação com o ex-marido. Até o sobrenome a garota teve que carregar, azedo ou não. Gosto amargo. Antes do Lima, era ela com a imagem de júnior. Como a coitadinha poderia cantar música de amor naquela forma de casal, com o irmão? Via, nos domingos de Faustão, ela olhando pela câmera e dizendo: vovó, quero cantar sozinha! Preciso amar por mim própria...
Foram anos e anos que minha neta cantou de amor, passando vergonha ao dividir a cena com outra presença em voz, som, família. E isso tem implicações éticas, inclusive afetivas, mas que ninguém quis falar, quiseram só consumir. Procure você a causa disso: o pai, a mãe, o irmão, ou o eu? Ache você pelo que a mãe torce! Encontre você pelo que o pai anseia! Entenda você o que o irmão teme! Questione você o que o marido/ex-marido quer. Compreenda você a quem a menina servia e, hoje, a quem a mulher serve. Descubra você o que eu sinto. Só sei que meu coração aperta ao vir à consciência a memória de minha filha duas vezes.
Adorei quando ela anunciou o fim da dupla e depois a carreira solo! Ufa, agora, só ela poderia cantar do amor-próprio só dela, e metonimicamente, das formas como as meninas/mulheres tinham para amar. Mas o que ela fez? Seguiu pelo lado mais seguro, uma dupla: o marido! Ideal da princesa garantido.
Não é pouca coisa! Vai viver assim para sempre? Eu avisei: não casa, não casa! Quis se casar e abrigar na relação de casal a função dupla. Convenhamos, tinha a decisão da vida nas mãos. Casou-se porque quis, que raios de subjetivação é essa?! Foi com o príncipe?! Foi... um príncipe superior ao reinado dela? Não! Vejam de quem ela é filha! Principalmente, note de quem ela é neta! Herdou também sabedoria. Quantas vezes disse a ela, "vai fazer faculdade, vá buscar pelo menos na profissão um lugar de si". A moça foi! Enfrentou todos os dias a encheção de saco dos filhos da PUCC. Queriam vê-la ali, aqui, lá! Nem no banheiro em paz a garota podia ir, imagine então sair para cuidar do c*! Mas aguentou firme todos os olhares. Sozinha! Sem juniores dentro dela. Orgulho! Venceu!
Venceu ainda mais coisas. Tinha que aprender LETRAS! Saber usar as palavras nas formas da subjetivação20. Aprendeu, por ela mesma, lavrá-las no coração! As canções estão aí. Vou ajudar a você nas análises de Me espera, Areia, Pra me refazer e Eu pra Você.
Mas voltando. Ela se casou porque quis. Não me venha com falta de escolha aqui. Já tinha seu reinado. Sabe da grande discussão entre ela e o irmão: o que você queria ter ou ser, a voz invejável ou o instrumento maneiro e legal? Legal para quem nesta disputa entre irmãos é sentido? Na época dos 90 e 2000, todes queriam voz. O garoto sabia? Sim, sabia sim. A garota sabia? Sim, sabia sim salabim (eis a marca mágica da ilusão21: todos sabiam, mas ninguém dizia). O irmão ficou mesmo ofendido quando a irmã preteriu o marido (com sua voz) para performar em dupla as letras/cantigas dela. Entre todos eles, a voz era ELA. O ex-dupla perde lugar para outro instrumentista, que também vira ex (dupla, marido, companheiro). Eis o jogo — o irmão vira ex22 da dupla; o novo companheiro instrumentista (dos irmãos Lima), amarga e vira ex-marido, dissolvido o casal, abre espaço para o inédito: um amante não instrumentista com voz legal (legal para ela). Uma questão Semântica. Se não notou, foi ELA até aqui me auxiliando:
— Velha, olha o que vai dizer... tenha bom senso!
— Velho, não mexa comigo, que teu tempo já passou. Disse para ele ser ele e para ela ser ela! Talvez esse tenha sido meu engano. Ele seria o eterno ex da dupla, ela não. Na época, já dizia a verdade ao futuro homem sempre menino. Ninguém me deu ouvidos e até que escutei sobre mim pelos cantos, "essa velha aí é filha de um sujeito qualquer...”, mas/mais23 Sandy? ELA NÃO! Ela tem espaço da primeira voz. É dela que sai a abertura para o encaixe da outra voz, uma voz com quem dialoga em suas canções. Ela também tem o poder do não, “não canto mais com ele, ele e ele”. Você, mistura de segunda e terceira pessoas, que aguarde o desfecho.
Sandy é filha do silêncio da mãe com a voz do pai e vai logo se casar com outro filho! Mas mais, ela queria mais, mas só percebeu isso anos depois. Deixou de ser júnior para ser senhora de si! Dele (ex-companheiro, mas sempre irmão), se a rua quiser, falo mais depois, mas... minha intenção aqui é falar também do filho! Bandido, aquele homem! Onde foi parar?! Eu vim até aqui para falar dele também e ele não me aparece, só pode ser bandido! Pego ele! Mas não o mato, não existe ex-filho. Nem que a puta que pariu impusesse.
Na ausência dele, defendo ela. E Sandy, você é sim sujeita ao mundo. Mas vovó-voz aqui deve falar de si, sou mais eu agora. Reclame e não me culpe. Eu te disse para não cantar do tempo ao vento e ainda colocou areia nele! Falei: "isso é perigoso!", se o fez, fez porque o quis, já que era mulher suficiente para não fazer. Desejo meu é falar em e da primeira pessoa, nem sempre foi necessária a audiodescrição. Aliás, netinha, não é o que você fez a vida toda, áudio descrição? Só perde para a internacional e repentina Taylor. Global é diferente de internacional. Famosa é diferente de infame. Moda é diferente de necessidade.
Se pergunte de você a você mesma, agora que estão defendendo o direito da invisível aqui, quer que eu fale só de você?! Não me compadeço integralmente do teu egoísmo. Não vou me calar só para te incluir. Eu sei que APROVEITEI a OPORTUNIDADE da autoclusão24. A escolha deve ser sempre própria quando você se entende em teu/seu lugar. Há outra opção que se chama renúncia. Sou uma pessoa e, para isso, tenho que renunciar às variações do pessoal externas a mim. Início a audiodescrição:
Eu sou Aparecida Eule. Eu estou usando um conjunto à la Fernando Pessoa. Ele é de flores pretas velhas a jovem indígena. Eu uso um chapéu de esposa que cuida do marido incapaz, brincos invisíveis do trabalho com a chatice dos filhos, chinelas da mulher que varre a rua em busca de alguns trocados! Eu trago no meu pescoço o peso de pedras e cores. Alguns acham que eu sou parecida com a mãe do gordinho branco que faz macarrão, arroz, feijão, maionese, salada de tomate e frango assado aos domingos. Eu saio dizendo que não é para gastar com restaurante. Eu tenho afetos! O que vem a mim agora é a raiva. Eu odeio quando as filhas e netas se casam cedo e arrumam filhos! Cortam as asas de mim. Por fim, quando me sobra um tempo, saio para me distrair ou jogo cartas.
Peço-te mais coisas. Coloque-me, pelo Imaginário25, no lugar da SABEDORIA que pode ter sido estuprada pelo PODER, a fim de gerar “bem-ditos FRUTOS” — os filhos. Confesso, tenho preferências. Tensiono ao amar o filho ou a filha que ama mais a mãe do que o pai. Sabe aquele/a que ouve conselhos, que fica com a gente em casa? Estou cansada dos/as que sempre dão trabalho por não me escutar.
Eu posso voltar aqui e explicar, caso a RUA me aceite, sobre a lógica estabelecida entre o primeiro, o segundo e o terceiro na tríade familiar: mãe, pai e filho. O problema é que vêm filhos e filhas, no plural. A família não fica apenas nos três sujeitos ali regulados. Tem o quarto! Ou a quarta! Tem o quadro ou a quadra. A raiz quadrada de quatro é quanto? Aí se tem o universo da complicação, nada resolve, nem a síntese de Marx, ou daquele outro de quem toma a dialética26. Ou até mesmo de Freud! Até hoje, fico me perguntando, de forma “insistiva”, o que fazer com a segunda cria (ou quarto da sucessão)? Seria espectro que contorna o id, ego e superego? Ou então o resíduo encrostado entre o Real27, Simbólico e Imaginário? Não me cobre de nada, sou uma heterônimo, como este só aceita artigos masculinos, vim para trazer rupturas das sombras do feminino. Freud e Lacan falam, falam, explicam e confesso, os ouço pouco. Sou livre por decidir o que escutar e para falar o que quiser (e isso é ofensivo?).
O que leio vem de Moisés. Escritor mais bem-sucedido de todos os tempos. Ouço a questão da imagem da fraternidade (ou disputa pela bênção do pai/poder) pela pena do autor do Pentateuco instruído no Egito. Ali, posso analisar Rebeca e seus dois filhos gêmeos: Esaú e Jacó.
Confesso que gostaria de trazer para cá Esaú e Jacó de Machado, mas não tenho predisposição para o corte do senhor de Bentinho. Hoje é dia de confissão. Ajudaria, tão bem, na análise, um outro par de irmãos, mas/mais antigos, Caim e Abel. Só que não me senti preparada para o Caim do amargo Saramago. Para seu [...] segundo Jesus, sim, e para seu Homem Duplicado também.
Graças ao português de Portugal, entendi a voz do senso comum com o professor de história, Tertuliano Máximo Afonso. Anotei a raiz quadrada das subjetivações espelhadas por quatro imagens28 de si mesmo — ou seja, o bom senso. Duas do original (eu e o outro), mais duas da cópia (eu e o outro também). É gostoso, em Saramago, ouvir a voz do bom senso misturada a todas as vozes sem pontuação. Contudo, só entre quebras se faz possível ouvir o senso comum e o bom senso lado a lado e separados. Foi assim que consegui ouvir a Sandy em seus duetos/duelos/duplas.
Retorno a Moisés. Rebeca teve filhos gêmeos do filho de Abraão — Isaque, o que foi dado em sacrifício, mas que depois veio a ovelha no lugar dele (o sacrifício de homens é sempre assim). Rebeca fez o mesmo, só que na versão dela, enganou o pai dos garotos para favorecimento do segundo em detrimento do primeiro. A ovelha criada virou guisado, e isso, às portas do ancião, dar a bênção da primogenitura ao seu escolhido por Deus.
Se não tivesse que falar do reinado de Sandy, contaria mais. Em resumo, a mulher mentiu, enganou, armou a cena.
— Que se dane! Por que só a bênção dele serve? Por que a escolha dele vem em primeiro lugar? Eu quer a bênção para quem ele quiser dar! Tenho certeza de que Deus pode reinar por minha livre escolha. O segundo aprendeu o mundo sentado aos meus pés, aqui comigo, também não sendo os primeiros. Quanto ao primeiro, viveu a agradar o pai! Enganei sim! Mas e aí, o que mais, qual foi a consequência disso?
Jacó brigou com o anjo, prevaleceu e algo da diferença acontece. Um acontecimento performatizado pelo dito, até de nome troca: passa de enganador a Israel. Trouxe o Gênesis para cá a fim de demonstrar semelhanças entre o álbum Nós, Voz, Eles de Sandy e a escolha de Rebeca. Para que a vontade do nosso modo de criação prevaleça, aqui entre nós, mulheres, damos voz a nós próprias e fazemo-nos eu entre a disputa deles. Chamem do que quiser, drama, cena, loucura, engano, semântica, linguística, fofoca. Porque, compactuemos, o que preciso fazer para fundar a "a Eu"? Só no modo existência é possível o eu se aproximar do artigo definido feminino, há EU! "Há eu" para sintaxe é oração sem sujeito por conter verbo impessoal. Pode parecer confuso, há uma eu, mesmo que residual, agindo pelos bastidores, ocultada. Vem daí minha defesa de Sandy e de mim, até de eu/mim mesma.
Pensando nos pensadores, entre Freud e o dialogismo de Marx, eu fico com o simbólico de Moisés e o niilismo de Pessoa. E nem me digam que o primeiro pertence à psicanálise. Ele/ela (símbolo/simbiose) é linguagem antes de Lacan, é só ler a gênese de qualquer um! Olha Jung aí dando trabalho. Foucault merece palmas por ressuscitar o monstro e o fez habitar "nos" corpos e "nas" performances? Mas mais... e a monstra? Não vim para falar do cuidado de si, vim para dizer do cuidado de mim.
No Brasil, exalto a doutora que foi ao Café Filosófico CPFL29, Campinas, a que fala dos narcisos feridos, me explicou direitinho como a vergonha age. Ela e infinitas outras têm feito algo pelo simbólico. Não tenho como ler todas vocês. Aceitem o processo da metonímia, é ela que eu tem a oferecer.
Caso Sandy: Sei do valor da primogenitura, do segundo filho e da “a” terceira que cria. Sandy cria por repetição dela mesma! Cria versos, imagens que saem do coração e usa sua voz para cantar. Dá as caras, mas quem bate na face de princesa? Em relação ao valor do quarto, da quarta, do quatro, da quadra, só na raiz quadrada para saber. A performance da diversidade não gera diversidade, é então, uma camada de si em si, ou seja, gera adversidade (mas é necessário ouvi-la). O diverso é o caminho (mesmo quando interno, se ouvindo entre diferenças). Tem que se diversificar. Ou seja, não ficar em um. Não se fechar a dois. Nem sintetizar em três. É somente trocar um por outro (ou outra coisa) indefinidamente. Não adianta quem assiste só a RuPaul30 achar que está na diversidade. É necessário, também, para ser diverso, assistir à Tríade do coração de ouro de Lars Von Trier.
Leonardo Alexandre31, resenhista na Cinemateca, que tem um belo sorriso na foto, nos relembra a importância da trilogia. As histórias deixaram escapar, por Ondas do destino (1996), o que se vê/entende como sendo uma forma de linguagem que possivelmente projeta um bom senso com causas femininas. Depois, quer nos fazer de Os Idiotas (1998) e, ainda, impõe que eu fique Dançando no escuro (2000)? Já disse, eu tenho a solução do Clímax na mão, meu bem! Entendi a tradução do Noé! Do fantasma Noé, do barco furado que a alta alemã drogada nos enfiou.
O coração de ouro das protagonistas, daquele que depois veio anunciar o Anticristo (2009) e a Melancolia (2011), é um coração que ouve vozes. International Lars Von Trier, tenho o global Carrasco32, meu bem! Meio que me entendo alexandrina, fico serena, depois faço a Cristina, só para me deparar com minha Alma Gêmea. Vozes, espelho e obsessão: eu a voz e as imagens dos objetos a minha volta — eles. Quem poderá, aqui e agora, me condenar? Só você mesma! Porque eles viraram ex na minha dupla.
Estou na RUA, ouço seu chamado! Se ela quiser, eu volto com mais bom senso e sem nenhum senso comum. Analiso o método discurso de Descartes para evidenciar o que movia Antígona: nada está descartado. Por ela, diz o feminino, na forma dupla: (eu) ela e a consciência (de mim e dela: a memória). Duplo e diverso, com repetições, mas sem restrições. Ou a reduplicação com falhas. É daí que falo. E dessa programação de subjetivações, e que hoje, não passam sem o digital. Aí é só Cris Dias! Ou dias de cruz-credo nas redes da comunicação regidas por dados.
Eu em audiodescrição. Não tenho registro, e lá no estrangeiro, eu me aposso de imagens como a da sagaz Miss Marple33. Nacionalmente, sou Helena de Manuel Carlos ou qualquer autora de Nelson Rodrigues34. Posso brilhar como atriz na Alma Gêmea35 do Carrasco. Julgue meu caso, você mulher: sou de um sujeito qualquer e sem registros, por isso habito em um lugar qualquer em um tempo qualquer: eu tenho direitos ou não? Sou um não-ser ou não? Eu posso te contar a que vim?
O caso é o seguinte: busquei na rua um pequeno lugar. E já agradeço, de verdade, humildemente, o me quiserem dar. Quero aproveitar e dizer: vim defender a primeira voz para a abertura das segundas e objetos terceiros. A cara metade da dupla cuja voz principal é minha, ao se desprender de mim, torna-se ex de mim: há eu para eles. Eu sou a outra (face da mesma moeda).
A coisa está sujeita à Sandy, às Letras, à voz dela. Ela cresceu e andou falando coisas em músicas, mas soube que eu voltaria para falar mais algo. Deixei a aposentadoria de lado, as cartas com as amigas para depois, pois senti que devia ao meu EU por examinar Ela. Sabendo da minha intenção irrefreável, a função-sujeito Sandy contorceu-se diante de mim: "Se tudo é sobre mim e eu não sou o que sou, como posso ser eu? Em busca de respostas, venho cantando sobre nós, a voz e eles". Fiquei sem argumentos, que eu a defenda então.
Ao ouvir a sobrinha pestanejar o direito dela ser ela própria, veio o bandido do meu filho. Sedutor, aquele homem. Quis foi aproveitar a oportunidade. Estava orgulhoso. Deu uma entrevista que virou livro. Comprou um exemplar e me entregou para Eu Ler. Filho bandido, quando fica revoltado, é pior. “Aqui no mundo de homens, toma juízo, rapaz!” É o que sempre digo. Mas se acontecer algo mais, pensasse antes! Quero falar de nós que somos feitas de areia: As mulheres; 36Rute e Raquel — interessante é que em Gênesis, Raquel é sobrinha de Rebeca que depois se torna esposa do filho amado da tia. Deveriam pensar entre si: “se por acaso tornou-se ex-primogênito e perdeu a bênção, o problema não é meu, é seu”. Ao invés do segundo tornar-se o primeiro, o filho no lugar do pai, passa de segundo a terceiro. Já na princesa, pela ordem do símbolo, deve tornar-se rainha; abelha rainha, a senhora da colmeia e dona da geleia real.
Sandy e suas músicas. Reconhece a canção Me espera37 (2016)? Veja a letra:
Me espera
Eu ainda estou aqui
Perdido em mil versões irreais de mim
Estou aqui por trás de todo o caos
Em que a vida se fez
Tenta me reconhecer no temporal
Me espera
Tenta não se acostumar eu volto já
Me espera
Eu que tanto me perdi
Em sãs desilusões ideais de mim
Não me esqueci de quem eu sou
E o quanto devo a você
Tenta me reconhecer no temporal
Me espera
Tenta não se acostumar eu volto já
Me espera
Mesmo quando eu descuido (me desloco)
Me desmando (perco o foco)
Perco o chão (e perco o ar)
Me reconheço em teu olhar (que é o fio pra me guiar)
De volta, de volta
Tenta me reconhecer no temporal
Me espera
No temporal
Me espera
Tenta não se acostumar
Eu volto já
Me espera
Eu ainda estou aqui
Há três versões de vozes que gravaram dueto com Sandy. O pai, o marido (que depois virou ex) e o Tiago Iorc. Para o corpo encarnar a voz, a voz encarnar a letra e para fazer sentido, que efeito se tem ao pensar nestas posições? A do pai, nem quero tocar no assunto. A do esposo, o que os versos diriam? Ambos estão em crise, perdidos. Com a dupla sendo composta por marido e esposa, é possível entender o afeto fracionado, alguém à distância, o contado como abismo a ser transposto. E se, com o passar do tempo, o marido se torna ex, deixa de ser a segunda voz e então, o lado masculino na canção é assumido por Iorc — (a imagem do ideal de homem romântico), o que se tem? Que posições, pelos versos, são reveladas? A da voz feminina, atravessada por afetos que a desestabiliza, pede para ser esperada por sofrer ao não conseguir retornar. Contudo, a voz masculina não sendo a do marido e sim de outro, o que esperar do casal/dupla “amoroso/a”? Como ela é princesa/rainha, assume a primeira voz. O amante sofre (marido, ex-marido, amante), mas se submete. Não ouvi a canção na voz que não seja da Sandy. Interessante é que quem assina a autoria da música é ela, o Lima e Iorc. Poderíamos brincar com vários versos e como eles significam em diferentes identidades. Mas fico a refletir em "não me esqueci de quem eu sou". E quem você é? — pergunto. Assuma! Quem é que diz "Estou por de trás de todo caos". É você esposo? É você amante? Ou seria você rainha? Sendo honesta, só ouço a versão com Iorc. As outras me geram mal-estar.
Os dados me enviam outra canção em sequência, Areia38 (2018). Dessa vez, em dueto com Lima e assinada por outros compositores:
Quer parar o tempo
Natural que seja assim
Ainda eu não te sei de cor
Tem tanto que eu não aprendi
Quer parar o tempo?
Pra eu ver daqui
Teu mundo vir assanhar meu rio
Eu posso até te olhar sem ir
Tudo no seu tempo
Tão veloz por dentro
Em mim passa devagar
A me acertar
Refrão:
Feito areia êa-ah
Feito areia êa-ah
Em mim
Em mim
Feito areia êa-ah
Feito areia êa-ah
Em mim
Tenho fragmentos
De uma vida com você
E tantos intervalos só
De longe, mas querendo crer
Tudo no seu tempo (tudo no seu tempo)
Tão veloz por dentro (tão veloz por dentro)
Em mim passa devagar
A me acertar
Corta essa distância
Se agarra nesse vento e vem
Me abraçar
Dá pra juntar tudo
Espera o tempo certo e vem
Não deixa passar
E assim (e assim)
Enquanto der, enquanto quer
E assim
Quanta areia! Estes dias sofri com uma imensa dor no ouvido direito. Fui aos médicos. Um disse que ele estava tapado, usei remédios para serem abertos. Outro que estava infeccionado, usei antibiótico em gotas. Enfim, ao tentar fazer a limpeza, senti areia saindo dali. Foi dos tombos que tive entre o mar e a areia da praia no início do ano. Se eu não tivesse tratado, a situação só complicaria. O que quero dizer é que não haveria tempo “certo” para a areia sair do ouvido, do corpo, da dor, do sofrimento. De onde os dois tiraram "tudo no seu tempo"? É areia dentro da ampola? É areia no lençol, entre fronhas e travesseiros? É areia nos olhos?
Caso seja a metáfora39 da ampola, a areia representa a regularidade do espaço tempo posta em ação mediante o giro. Assim, como o tempo pode ser veloz por dentro e em ti passa devagar? É só com subjetivação e forma-sujeito. Só crendo, e bem-criado no erro, que areia em mim é algo confortável! Como devem estar machucados marido e esposa que se esfregam em tanta areia repetida. Entretanto, alguém teve que acabar com essa aflição.
Sandy inova, Pra me refazer 40(2018). Faz um dueto diferente. Traz para cantar seu refazer com uma dupla feminina que canta como uma coisa, só voz: ANAVITÓRIA.
Pra me refazer
Sabe, amor
Eu fui sem canto pra tua direção
Tava sem voz, sem rumo, só coração
Nem sei onde é que a gente se perdeu
Ou se escondeu do nosso bem
Sabe bem
Falar pro amor de agora que acabou
Que foi o tempo e que a lua virou
Me dói de um tanto sem tamanho
O vazio é difícil acostumar
Ainda bem que não hesitei em te abraçar
O nó afrouxa até a mão querer soltar
Mas da tua mão eu não larguei até voltar
Pra direção da tua calma
Me diz
Quem é que vai me levantar agora
Eu já não tenho hora pra me refazer
Então me diz
O que é que eu faço dessa vida sem você
Quem é que vai me levantar agora
Eu já não tenho hora pra me refazer
Sabe, amor
Eu fui sem canto pra tua direção
Tava sem voz, sem rumo, só coração
Nem sei onde é que a gente se perdeu
Então volta, me retoma, desafoga
Vem realinhar
Me estremece, me percebe, eu vou ser breve
Pra gente não esfriar
Atente aos versos na voz de Sandy: “Me diga”; "O que é que eu faço dessa vida sem você" e se atente ao nome da canção. Depois, ligue as vozes femininas entre si. Já descobrimos a quem se refere "sem você". É a forma-sujeito falando com ela mesma. O mais interessante é que ela se “duplifica” em seu interior e ambas passam a se tocarem em um diálogo.
Sandy canta "Eu fui sem canto para tua direção", a voz-eu parte diretamente na direção do amor que está marcado pela segunda pessoa, a voz-tua-você. Quem enuncia primeiro assume ter perdido a voz. Diz não saber o que fazer da vida sem você e aponta o movimento seguinte para “tua direção”. Evidencia o interlocutor e seu espaço: amor e coração. A responsabilidade fica a cargo desse detentor do "nosso bem". O amor fala pelo coração que diz pelo "Canto": voz, letra, espaço, harmonia e melodia. É necessário ouvir a performance das vozes para situar que é a função Sandy falando com seu objeto; é o objeto sandy que retorna pelo canto para falar de sandy a Sandy. É ANAVITÓRIA, a dupla, com uma única voz, que assume o espaço do amor e diz: "Mas da tua mão eu não larguei até voltar". Eu encontra você ao voltar-se para o eu da outra voz. Assim, as coisas do coração vão refazendo o eu.
Com o eu refeito, chega a hora do EU falar para você: interlocutor. É, você mesmo. Você que me acompanha e sabe da luta do eu-Sandy que pode receber o nome de fã da Sandy! Dessa vez, Sandy divide a música Eu pra você 41(2018) com três irmãos, Melim:
Eu pra você
Cansei de morrer por amor
Então me deixa viver por você
Cansei de deixar pistas pra você encontrar
Mas então vem se eu te chamar
Tô cansada de ser outro alguém
De fingir que eu tô bem, se eu não tô
Então me deixa te dar o que eu sou
Me deixa ser eu pra você
Esquece essa história inventada de achar
Que dá pra controlar seu coração
Me deixa parar de tentar enganar o meu
Que só quer ser teu
Que só quer ser teu
Sandy fala ao seu público. Diz estar cansada de deixar as pistas, de viver para ser obrigada a amar por senso comum pai, irmão, marido, amante! Ela não quer fingir que está bem ao dividir sua voz, sua letra, seu reinado. Ela diz, por meio do seu canto e voz, que quer viver por você! Pois você (o interlocutor) é a força motriz para ela ouvir a si própria, ou melhor, a eu que ouve a mim, por você. Ai, que confuso! Em síntese, para facilitar: há uma voz interna que precisa ser ouvida na regulação do eu. Essa voz pode ser nomeada como bom senso, ou poeticamente, a voz do coração. Ela já é afetada pelo senso comum, algo já posto pelo social e que interfere na audiência das “reais” vontades. Uma questão de afetação das escolhas. Só há narrativa porque há escolhas, só há escolhas porque há sujeito, só há sujeito porque há algo que ouve o eu e o subjetiva, só há subjetivação porque há senso comum que age no comum de todo senso, só há senso porque há linguagem e memória. Mas como fica o Eremita niilista de Fernando Pessoa? E como eu, Aparecida Eule, fico?
Para chegar até aqui, quisemos fugir do senso comum, para dizer algo do diferente, talvez por bom senso. Não fugimos de nenhum deles, pelo contrário, vim para compreender, isoladamente, o que pode ser o que chamamos de bom senso, ou ainda, o senso de ouvir a nós mesmas. Quem somos nós? Escolhi aparecer e ler entre Pessoa e Zaratustra. O super-homem ou a superidentidade sem o si: ele/eles, ou nós, as vozes? Então, agora, quem é você? Julgue meu caso! É a segunda pessoa do amor do EU ou a terceira, um objeto identitário que pode fazer o eu fingir estar bem ao residir no canto do senso comum? O coração dela quer ser só teu!
Passo a narrar a situação com meu filho. Uso a trilha de Saramago:
Mãe, agora que falou dela, pode falar de mim, né? O que quer que eu fale? Da entrevista que dei pro moço pesquisador que depois virou livro. Mas que livro? O que dei para a senhora lê! O que quer que diga? Se você leu! Eu Li, eu-li, Euli. O que então te apareceu? Apareceu tua voz de ex, de ex-presidiário42. E não está bom? E é bom ser ex-presidiário, meu filho? Se eu não sou eu, como posso ser? Seja ele, um ex-qualquer, um ex-amante, ex-marido. Chega mãe, só dá resenha, a senhora leu memo? Eu li, eu li, sou uma mãe coruja, minhas considerações: você falou tua verdade, aí a desgraça apareceu, o não querer voltar para prisão realmente funcionou e o espectro me fez viva. É um dez então a obra? Não, de forma alguma, é oito. Por que não dez? Porque dez é dez. Sério? Sério! Mas me diz, por que não dá nota máxima pro moço? Deve ser seu título esquisito: O discurso de ex-presidiário e o que mesmo? E desgraça mãe, e a desgraça... um nove pelo menos... vai. O nove é Sandy, Sandy é nove. Mãe do céu, é exigente memo, então para “você”, quem é dez? Eu sou dez!
Referências:
ALTHUSSER, L. Sobre a reprodução. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. Petrópolis: Vozes, 1999.
BENVENISTE, E. Problemas de linguística geral I. 5. ed. Campinas: Pontes Editores, 2005 [1966].
BENVENISTE, Émile. Problemas de linguística geral II. Tradução de Eduardo Guimarães et al. Campinas, SP: Pontes, 1989.
BÍBLIA, Tradução Almeida Revista e Atualizada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil.
DERRIDA, Jacques. História da mentira: prolegômenos. Estudos avançados, v. 10, p. 7-39, 1996.
DIAS, Cristiane. Análise do discurso digital: Sujeito, espaço, memória e arquivo. Campinas: Pontes Editores, 2018.
DIAS, C.; COSTA G.; BARBAI, M. Manifesto Silêncio: uma leitura da obra de Eni P. Orlandi/Organizadores Cristiane Costa Dias, Greiciely Cristina da Costa e Marcos Aurelio Barbai. 1ª Ed. Campinas, SP: Pontes Editores, 2023.
DUCROT, O. Dizer e o Dito. Campinas: Pontes, 1987
HAROCHE, Claudine. Fazer Dizer, querer dizer. São Paulo: Hucitec, 1992
MILNER, Jean-Claude. Os nomes indistintos. Trad. Procópio Abreu; Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2006.
NIETZSCHE, Friedrich. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral (1873). Trad. Paulo César de Souza, v. 2, 1999
ORLANDI, E. P. Discurso e Leitura. 9ª ed. São Paulo: Cortez, 2012.
PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. 5. ed. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2014.
PÊCHEUX, Michel. Análise automática do discurso (AAD-69). In: PÊCHEUX, Michel. Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. 3. ed. p. 61-161. Campinas: Editora da Unicamp, 1997.
PESSOA, F. Tábua bibliográfica. In: Presença, Coimbra, n. 17, dez. 1928 (ed. facsimil. Lisboa: Contexto, 1993). Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/2700. Acesso em: 27 out. 2024.
PIANTONI, F. Discurso de Ex-presidiário e a desgraça do resíduo espectral. 1. ed. Campinas, SP: Pontes Editores, 2024.
SOUZA, P. de. E daí? O sujeito fora e dentro da cena de sua fala. Revista da ABRALIN, [S. l.], v. 19, n. 3, p. 530–540, 2020. DOI: 10.25189/abralin. v19i3.1759. Disponível em: https://revista.abralin.org/index.php/abralin/article/view/1759. Acesso em: 22 mai. 2023.
Data de Recebimento: 27/10/2025
Data de Aprovação: 14/07/2026

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Para citar essa obra:
EULE, Aparecida. Há Sandy entre nós, mas é você quem mais julga. In: RUA [online]. Volume 30, número 2 – p. 305-327 – e-ISSN 2179-9911 – junho/2024. Consultada no Portal Labeurb – Revista do Laboratório de Estudos Urbanos do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade. http://www.labeurb.unicamp.br/rua/
Capa: detalhe da capa do EP “Meu Canto” (2017) Disponível em: https://www.deezer.com/br/album/40967681
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Laboratório de Estudos Urbanos – LABEURB
Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade – NUDECRI
Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP
http://www.labeurb.unicamp.br/
Endereço:
LABEURB - LABORATÓRIO DE ESTUDOS URBANOS
UNICAMP/COCEN / NUDECRI
CAIXA POSTAL 6166
Campinas/SP – Brasil
CEP 13083-892
Fone/ Fax: (19) 3521-7900
Contato: http://www.labeurb.unicamp.br/contato
É fato que algoritmos geram estatísticas do próprio consumo. A obra Análise do discurso digital: sujeito, espaço, memória e arquivo de Dias (2018) é um importante marco para as reflexões que compõem a materialidade dos dados. DIAS, C. Análise do discurso digital: sujeito, espaço, memória e arquivo, 2018.
Em referência às análises do mal dizer desenvolvidas em Barbai, “A linguagem, não custa dizer, é trabalho simbólico, ela é transformadora do homem e da natureza dela mesma” (p. 209). DIAS, C.; COSTA, G; BARBAI, M (Orgs.) Manifesto Silêncio: uma leitura da obra de Eni Orlandi. Campinas: Pontes Editores, 2023.
Compreendemos a forma-sujeito nos desdobramentos da Análise Materialista de Discurso iniciada por Pêcheux, mas sustentada na releitura de Althusser sobre Marx (teoria materialista que sintetiza: só existe prática através de ideologia e só existe ideologia através do sujeito). Algo que desemboca em dos dispositivos teóricos/analíticos/discursivos quando a questão é atravessada pela materialidade da língua. PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: uma crítica à informação do óbvio. 5. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2014.
PIANTONI, F. Discurso de ex-presidiário e a desgraça do resíduo espectral. Campinas: Pontes Editores, 2024.
PIANTONI, F. “O movimento tem como objetivo espelhar os objetos referenciados, pois na movimentação daquilo que o sujeito apresenta estará sua predicação, o que toma para si. O que toma para si reflete o campo material de sentido em que se assujeita [...] Ao demarcar esse espaço discursivo, procuraremos descrever os processos de efeitos de sentido do sujeito sobre o sujeito” (p. 95).
ORLANDI, E. Palavras ao vento ou o poder e o vento, In: ORLANDI, E. Discurso e texto: formação e circulação dos sentidos. Campinas: Pontes Editores, 2001. Lemos: “(se) significam a realidade social e natural em determinadas condições e a partir de um saber discurso, uma memória que se faz pela filiação a uma rede de sentidos, historicamente determinados e politicamente significados” (p. 142).
Em referência também à Revista Rua.
Há no texto todo um jogo de sentidos em relação aos pronomes pessoais. Duplas determinações, deslocamentos da posição pessoa, aberturas e fechamentos sintáticos e semânticos. Por exemplo: o pronome “eu”, nesta análise, torna-se indexador linguístico do complexo material que o determina; ao mesmo tempo que seleciona a identidade posta no espaço vazio, abre-se para sua seleção. Para maior compreensão dessa classe gramatical, deve ser suscitado o que Benveniste estuda em Problemas de Linguística Geral I (2020) e II (1989), como também a reelaboração do “eu” na manutenção dele, isso em Semântica e Discurso (2014) de Pêcheux. A obra de Piantoni F trabalha a aproximação entre os dois pesquisadores e estimula a pensar os processos de determinação e indeterminação materializados na linguagem pelo uso dos pronomes. BENVENISTE, É. Problemas de Linguística Geral I. 5. ed. Campinas: Pontes Editores, 2020.
HAROCHE, C. Fazer Dizer, Querer Dizer. São Paulo: Hucitec, 1992.
Oswald Ducrot (1984) discute como o sentido é construído por meio da enunciação em uma segmentação discursiva. Ele critica a unicidade do “sujeito falante” e a noção de que cada enunciado possui um, e somente um autor. Para o linguista: enunciado pertencente ao domínio do observável, se dá na “ocorrência hic et nunc de uma frase” (Ducrot, 1984/1987, p. 164). No enunciado “Se eu não sou o que sou, como posso ser?” o observável é o aqui e agora a que o sujeito está assujeitado. Caso a estrutura linguística se compusesse materialmente em outro instante, teríamos, portanto, “dois observáveis diferentes” (Ducrot, 1984/1987, p. 164). A enunciação é se torna produto da atividade do “sujeito falante”, ou seja, materialidade da linguagem. Neste texto, o “eu” é da aparição de Aparecida Eule. Algo tido como uma metáfora para a própria enunciação, não somente metonímia para identidades de si. DUCROT, O. O dizer e o dito. Tradução de Eduardo Guimarães. Campinas: Pontes Editores, 1987.
A contradição trazida aqui é própria do enunciado “se eu não sou o que sou, como posso ser?”. Em nosso trabalho, a contradição estará estabelecida — desde a origem do sujeito — em se fazer sentir o sentido; e no contrário: do sentido se fazer sentido. O “eu” deve agir e, para agir, deve manter-se em seu estado de atuação. Se ele é interrompido, tornara-se algo desapropriado de sentido, em consequência, de localização de si (propriedades materiais discursivas de decomposição e composição de subjetividades — o que dá abertura para o eu ser o outro).
A lógica a que se refere o texto está apresentada em Determinação, formação do nome e encaixe, Pêcheux (2014).
SOUZA, Paulo de. “E daí? O sujeito fora e dentro da cena de sua fala.” Revista da Abralin, v.19, p.530-540, 2020.
Voz neste texto compactua com múltiplos sentidos. Há de se compreender a reflexão sobre a “voz” já no uso demarcado da primeira pessoa: materialidade gramatical. Junto a ela, estende-se “voz” como posição/espaço e identidades atribuídas no interior de forma-sujeito. Também, ao tratarmos da voz da cantora, outras imbricativas são postas: voz em seu aspecto físico material sonoro, timbre, afinação, textura materializadas em uma conjuntura sócio-histórica, marcando uma época e subjetivando identidades além e com a marca (de sentido, estética, social). Por fim, voz em seu complexo uso espectral, como por exemplo a voz interior, resquício simbólico e imaginário não materializado em cenas enunciativas com a definição clássica do interlocutor. A voz fantasmagórica, que só diz a alguns capazes de ouvir.
NIETZSCHE, F. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral (1873). Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
DERRIDA, J. “História da mentira: prolegômenos.” Estudos Avançados, v. 10, p. 7 – 39, 1996.
Aparecida Eule se propõe a não ser a síntese do personagem que desceu da montanha para anunciar a morte de Deus e o surgimento do super-homem. Ela se coloca no silenciamento do super-homem, na não sedimentação da eremita, portanto, em espaços onde encontra brechas, mesmo que sejam entre fagulhas na subjetivação dos afetos, dos mal-ditos e da maldita palavra.
Para compreender a tríade Simbólico, Real e Imaginário de Lacan, apoiamo-nos em Milner (2006) e em sua obra Os nomes indistintos. Logo, em uma suposição que “há a língua, suposição sem a qual nada, e singularmente nenhuma suposição, poderia ser dita” (p. 7); “Em particular, entendemos pelas três suposições: que nada poderia ser imaginado, isto é, a não ser por I [imaginário], nada pode existir a não ser por R [real], nada pode se escrever a não ser por S” (p. 8). MILNER, Jean-Claude. Os nomes indistintos. Trad. Procópio Abreu. Rio de Janeiro: Companhia Freud, 2006.
Subjetivação deve ser compreendida aqui como processos complexos/contraditório e regulatórios, que incluem os de linguagem, capazes de transpor as relações do Real, Simbólico e Imaginário do há algo/algum em eu sou, está em mim, isto/isso é meu.
Seguimos o que Pêcheux (2014) propõem em A forma-sujeito do discurso: estamos, simplesmente, retomando a designação que Lacan e Althusser — cada um a seu modo — dera (adotando deliberadamente as formas travestidas e “fantasmagóricas” inerentes à subjetividade) do processo natural e sócio-histórico pelo qual constitui-reproduz o efeito-sujeito como interior sem exterior, e isso pela determinação do real (exterior), e especificamente — acrescentaremos — do interdiscurso como real (exterior) (p. 150)
Suscitamos os estudos de Piantoni F. (2024), que trabalha as especificidades dos efeitos de sentido do prefixo ex. Nele, há uma extensa saturação que promove a análise de tempo para o sujeito e os não escapes de identidades.
A utilização de mas/mais pode ser descrita em um jogo argumentativo no qual há a contradição e em seguida a intensificação do que estaria por vir. Algo inscrito no enunciado: “você é importante, mas eu sou mais eu”; ou ainda “vivi uma vida boa com ele, mas quero mais para mim”.
O conceito aqui de autoclusão faz trabalhar em resistência ao da psicanálise de foraclusão, uma vez que a função autor deste texto é preenchida por aquilo que a clínica das psicoses e das neuroses cientificamente podem fixar com suas qualificações. O desvio é literário, heterônomo, um nome que faz se existir em nome diferente de autor.
MILNER, Jean-Claude. Os nomes indistintos. Trad. Procópio Abreu. Rio de Janeiro: Companhia Freud, 2006. Partimos de uma das suposições de Milner, a que se há, e que o há pode ser dito/escrito pelo Simbólico (S), há também a semelhança/semelhante – (contrário também é verdadeiro), entre as inscrições, assim: “é que há semelhante, na qual se institui tudo o que constitui laço: o imaginário ou I” (p. 7): em I, para um ser tomado no tecido do representável e do possível, o real aparecerá como o irrepresentável e o impossível como tais. Assim, ali onde I instaura o espaço e o tempo como modos específicos da relação, cujo cruzamento determina a forma de todo acontecimento possível, R [real] decidirá como o fora-de-espaço do qual certas tipologias constituem metáforas, como a fora-do-tempo de que o instante marca data, como o fora-de-acontecimento que o puro encontro realiza (p. 9).
Em referência a Hegel, a dialética é compreendida como síntese entre opostos. Aparecida Eule faz pensar na síntese entre os opostos, mas há o semelhante entre as oposições que resiste e fica. O que fica é certo resíduo ao pensar a estratificação entre o primeiro e o segundo. Algo a ser definido em: quem não recebe a “benção” do ser primeiro é mal-dito por ser o primeiro que deixa de a ter, ou seja, o segundo? Uma lógica para subjetivar algo como: o segundo se determina por efeito do primeiro, enquanto o primeiro não pressupõe ser causa/efeito do segundo, ele faz-se determinar. Em termos de subjetivação: o segundo deseja o primeiro, o primeiro deseja se manter à frente.
MILNER, Jean-Claude. Os nomes indistintos. Trad. Procópio Abreu. Rio de Janeiro: Companhia Freud, 2006. “Existem três suposições. A primeira, ou melhor, uma delas, pois já é demais pôr ordem nisso, por mais arbitrária que seja, é que há: proposição tética que só tem por conteúdo sua própria posição — um gesto de corte, sem o qual não há nada que exista. Chamaremos isso de real ou R”.
O texto aqui apresentado propõe reduplicar as relações imaginárias descritas por Pêcheux em ADD-69. Diante das representações de A (quem sou eu para lhe falar assim) e (quem é ele para que eu fale assim), tanto lhe e ele representam uma extensão do eu: (quem sou eu para que eu fale assim comigo) e (quem é esse eu – extensão de mim – para que eu fale assim). Pêcheux, M. Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. V.1. Campinas: Editora da Unicamp, 1990.
Fernanda Pacheco-Ferreira (https://www.youtube.com/watch?v=AU1rlvd6e9k).
RuPaul, Andre Charles (San Diego, 17 de novembro de 1960), mais conhecido como RuPaul, é uma drag queen, apresentador, ator, supermodelo e cantor americano, que se tornou conhecido nos anos 90 quando apareceu em uma grande variedade de programas televisivos, filmes e álbuns musicais. Fonte: Wikipedia. https://pt.wikipedia.org/wiki/RuPaul
Disponível em https://www.cinemaemcena.com.br/coluna/ler/488/ondas-do-destino
Em referência a Walcir Carrasco, escritor e teledramaturgo brasileiro de sucesso.
Personagem da escritora Agatha Christie. Protagoniza os maiores romances policiais da história.
O dramaturgo escreveu diversas peças assinadas por pseudônimos femininas.
Novela da Rede Globo de 2005. Retransmitida em 2024, batendo recorde de audiência nas tardes brasileiras.
Novela da Rede Globo, escrita por Ivani Ribeiro, reexibida em 2023. Está presente no enredo o duplo feminino, os opostos entre irmãs que também recebem nomes bíblicos. Raquel é má, Ruth ostenta a bondade. A filha má é amiga da mãe e ambas são cúmplices das tramoias da filha “sem ética”. Enquanto Ruth é amiga do pai e segue princípios “mais elevados”.
Disponível em: https://www.letras.mus.br/sandy/me-espera/. Acesso em: 27 out. 2024.
Disponível em: https://www.letras.mus.br/sandy/areia/. Acesso em: 27 out. 2024.
“Uma palavra pela outra é a definição da metáfora, mas é também o ponto onde o ritual se estilhaça. Ritual que não deixa seu tempo escapar para sua determinação, ritual que não deixa o espaço ceder, para sua ocupação”. (Piantoni, 2024, p. 187)
Disponível em: https://www.letras.mus.br/sandy/pra-me-refazer-part-anavitoria/. Acesso em: 27 out. 2024.
Disponível em: https://www.letras.mus.br/melim/eu-pra-voce-part-sandy/. Acesso em: 27 out. 2024.
O discurso sobre o ex-presidiário é exposto na obra “Discurso de ex-presidiário e a desgraça do espectro residual” de Fábio Piantoni, 2024. A pesquisa é subsidiada pela Análise Materialista do Discurso e nela há a discussão do papel da nomeação para a desgraça e libertação, assim como do espectro em linguagem.
Aparecida Eule é heterônimo. Mulher, já na terceira idade, tem em seu currículo um extenso olhar sobre a sociedade, a família, a cultura e a posição da mulher diante da invisibilidade a ela dada. Reside atualmente na visão e criação de Fábio Piantoni, professor de Língua Portuguesa, mestre em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor (IEL, Unicamp) e autor do livro Discurso de ex-presidiário e a desgraça do resíduo espectral. E-mail: fabiopiantoni@gmail.com.