Figura 1– Registro de uma placa de trânsito em um sinal semafórico no trânsito de Campinas

Fonte: Acervo Pessoal
Antes de chegar
Pare. Nunca pare sobre a faixa de pedestre. Entre. Silêncio. Cuidado! Animais na pista. Sala restrita. Obrigatório apresentar identificação. Mantenha os cintos afivelados. Fale ao motorista somente o indispensável. Faça o seu cadastro. É preciso ter um endereço válido. Curva sinuosa adiante. Crie uma senha forte. Bem-vindo.
A todo momento, dizeres informativos – emplacados ou eletrônicos – indicam o modo como os sujeitos devem ocupar o urbano. As frases listadas no parágrafo anterior foram colhidas num dia em que, atento às questões teóricas que fundamentam este artigo, decidi anotar qualquer comando que lesse pelas ruas, semáforos, portas, janelas e sites. Não é difícil concluir que estamos sempre sendo dirigidos. Obedecendo a estas direções ou subvertendo estes comandos, os sujeitos são sempre confrontados com o imbricamento entre o jurídico e o político que se materializa nesta discursividade. Trabalhos como o de Zoppi-Fontana (1999, p. 54) jogam luz sobre este processo ao refletir sobre os “mecanismos de inclusão/exclusão dos sujeitos sociais no espaço público urbano” que se materializam nos cartazes que advertem contra a prática do comércio informal na Rodoviária do Tietê. Destrinchando, ao longo do artigo, dizeres como Sr. Usuário, colabore com a segurança. Não dê esmolas, faça suas doações a instituições de caridade ou Sr. Passageiro, utilize táxis credenciados, evite serviços estranhos ao terminal, a autora nos mostra como há, pelo simbólico, um leitor suposto para estes textos, de modo que se produz uma cisão entre os sujeitos sociais significados nestes discursos: uns são os senhores credenciados, membros da família ou da corporação, e todos aqueles que não estão integrados são os outros, os estranhos. Pela materialidade discursiva, vislumbramos a interpelação dos indivíduos em passageiros, pedestres, consumidores, turistas, habitantes, enfim, em sujeitos citadinos. Em Cidade dos Sentidos (2004), Orlandi se aprofunda nestes processos, oferecendo também muitos pontos de entrada que nos permitem entender o espaço urbano como um corpo discursivo.
Movido por estas leituras e no encalço de suas teorizações, desenvolverei, neste artigo, uma análise de três tirinhas de Laerte que textualizam as interdições e os possíveis que constituem o espaço urbano e, no processo, fazem irromper uma cidade fictícia.
Antes de chegar lá, tomo liberdade para jogar com uma reformulação. Se, ao final de seu artigo, Zoppi-Fontana sugere que invertamos o dizer clássico Cuidado com estranhos para propor o mandamento Estranhos, cuidado com os cidadãos, retomo esta estrutura, então, para propor outra formulação que ditará o ritmo desta análise: Estranhos, por favor, orientem os senhores pela cidade.
Às portas da cidade
Figura 2 – Tirinha da cartunista Laerte publicada em seu perfil oficial no Instagram (@laerteminotaura) em 5 de julho de 2024

Fonte: https://www.instagram.com/p/C9CuktvR4U-/
Partindo das reflexões de Zoppi-Fontana (1999) sobre as “leituras de exclusão” no espaço público rodoviário e das propostas de Orlandi quanto à narratividade urbana em Cidade dos Sentidos (2004), tracei minha busca por objetos simbólicos2 que dialogassem com estas questões. Foi assim, em um processo errático de seleção, que me deparei com três tirinhas que pareciam dialogar de maneira muito coesa, em uma montagem na qual o urbano é textualizado como um território marcado por discursos que cingem, no social, quem é cidadão e quem não é.
Tinha a impressão muito viva de já ter visto com frequência tirinhas de Laerte que ironizavam e questionavam as relações sociais e políticas no contexto urbano. Vasculhando sua obra aleatoriamente (em suas redes sociais X e Instagram, nas quais a cartunista compartilha suas tirinhas que foram publicadas na Folha de S. Paulo no mesmo dia), fui pescando, então, tirinhas que, espalhadas, pareciam se colar, costurando um diálogo com este urbano marcado pelas tensões discursivas que Zoppi-Fontana descreve. Esta cidade que é constituída por dizeres que gerenciam o espaço público, promovendo “leituras de exclusão”, como a autora afirma, e estabelecendo, pelo efeito de pré-construído e pela injunção jurídica, uma cisão entre “os sujeitos credenciados e os que são estranhos ao terminal”. Cada tirinha pode nos levar a explorar em específico alguns tópicos do artigo, ao mesmo tempo em que, no conjunto, parecem formar acidentalmente uma tirinha expandida que aponta a discussão para outros lugares. E é assim que pensei em trazê-las aqui, como uma narrativa acidental. Nessa proposta de compor uma trilogia urbana acidental, justifico o “acidental” – inspirado pela tirinha (figura 2)3 que ilustra esta seção do artigo – como uma forma de acentuar que esta análise investe em uma leitura-trituração (Pêcheux, 2016) da obra de Laerte, articulando uma sequência entre estas tirinhas. Ao falar em leitura-trituração, Pêcheux define que o dispositivo de leitura construído pela análise de discurso se constituiria em operações como “recortar, extrair, deslocar, reaproximar” (Pêcheux, 2016, p. 25). É a partir destes gestos, portanto, que estabeleço o recorte discursivo (Orlandi, 1984) que será objeto desta análise. Tal qual Orlandi (1984, p. 14) conceitua, o recorte não é apenas uma segmentação de uma frase ou sintagma, mas, sim, “um fragmento da situação discursiva”. Assim, os recortes serão entendidos aqui como unidades discursivas, isto é, como sendo constituídos “na (e pela) situação de interlocução, aí compreendido um contexto (de interlocução) menos imediato: o da ideologia”. Considerando, ainda, que as tirinhas textualizam questões referentes ao urbano, traço uma ponte com a noção de “narratividade urbana” que, como teoriza Orlandi (2005, p. 31), seria composta de modo disperso por “flagrantes”, “estampas”, cenas que, sem um narrador, constroem o corpo discursivo da cidade. De modo análogo, é assim que as tirinhas serão aqui analisadas, como se fossem placas, cartazes, enfim, retalhos dispersos pela cidade que, a partir do olhar-gesto do analista, podem ser tomadas como uma narrativa – cabe ressaltar, neste ponto, como a própria forma de circulação das tirinhas contribui para essa leitura, uma vez que elas são, geralmente, publicadas sem título e em diferentes plataformas ao mesmo tempo, nem sempre sendo compiladas posteriormente em um livro.
Será assim, fazendo emergir esta trilogia urbana acidental, que a análise se costurará, feito um roteiro de um Road-Movie4, como um passeio por uma cidade que não existe. Mas existe.
Você está entrando em Proibido.
Bem-vindo: “Você está Entrando em Proibido”
Figura 3 – Tirinha da cartunista Laertecompartilhada em seu perfil pessoal

Fonte: @LaerteCoutinho1 no X em 06/11/2021. Disponível no link: https://x.com/LaerteCoutinho1/status/1456933157727580163
As cidades, enquanto espaços físicos, podem se formar e ganhar vida antes mesmo de serem nomeadas. No entanto, é a partir de sua nomeação que uma cidade pode ser construída como referente. O nome é uma entrada para o simbólico, abertura para que a cidade possa ser interpretada como um corpo discursivo. É do nome da cidade que emerge o gentílico que designará seus habitantes. O nome próprio, como afirma Pêcheux (1995, p. 99), “é resultante, precisamente, da operação de determinação ‘levada ao extremo’”. O nome de uma cidade a define em relação a outra cidade; o nome é, no simbólico, uma fronteira.
Nesta tirinha, Laerte nos apresenta a Proibido. Esta é a cidade que abrigará o curso deste artigo. Uma cidade que se constitui no efeito metafórico que faz da proibição o lugar do possível.
Em quatro quadros, vemos uma cidade se erigir ao redor de uma placa de Proibido. O funcionamento jurídico-administrativo dos dizeres presentes em placas e letreiros eletrônicos nos espaços públicos é textualizado no primeiro quadro: há uma interdição à ocupação daquele território. Os três quadros seguintes convocam o gesto de interpretação, no entanto, para a possibilidade de deriva do mandamento emplacado. Proibido, diz a placa, mas não muito longe dali já se pode visualizar uma construção (segundo quadro), mais um pouco e três construções despontam no horizonte (terceiro quadro), até que, finalmente, a placa de proibido se apresenta como um anúncio de boas-vindas em uma estrada que leva para uma aglomeração urbana. Com o acréscimo de uma placa acoplada (Você está entrando em) e a inevitável urbanidade que se ergueu ao seu redor, Proibido se desloca, então, num efeito metafórico, e passa a funcionar como o nome da cidade.
Placas de toda ordem, inclusive as proibitivas, significarão sempre em tensão com a possibilidade de outros sentidos. Assim, de repente, a palavra de ordem – que impedia que aquele território fosse habitado – se desloca, sendo convertida em um nome próprio. Como na transgressão de afixar cartazes onde há um aviso de “proibido afixar cartazes” ou de tomar um atalho pelo gramado onde se lê “proibido pisar na grama”, a ordem urbana se constitui nesses deslocamentos de sentido, mesmo que a organização trabalhe para dirigi-los. A placa que diz que não é permitido atravessar será, eventualmente, ignorada ou desobedecida. Sempre vamos atravessar.
Pela memória discursiva, esta tirinha remonta ao processo de urbanização brasileiro em específico, marcadamente desigual – repleto dos ecos que não cessam da colonização –, significado pelo “tumulto e pelo desleixo” (Orlandi, p. 14). A cidade de Proibido textualiza, no simbólico, a ocupação das favelas nos morros cariocas ou das palafitas que preenchem a paisagem ribeirinha amazonense, para citar alguns exemplos. Lugares imprevistos onde o urbano irrompe, ainda que sejam significados (ou determinados) pelo discurso urbano e pelo discurso médico-higienista como “espaço de direitos negados e marginalidade”, tal como aponta Costa (2014, p. 71) ao descrever o modo como a favela foi configurada no processo de modernização da cidade do Rio de Janeiro (p. 70). Isso é um ponto crucial para Orlandi, pois um dos objetivos é entender que “o aparente espontaneísmo com que se apresenta a instabilidade, a divergência, os conflitos não significam que não hajam ações sendo tomadas na direção de dar uma forma ao urbano” (p. 15). Isto porque, como processo de significação, a organização do urbano está sujeita ao equívoco. É deste modo que, apesar de ser proibido, uma cidade nasce. Quando vamos ver, já estamos entrando em Proibido.
Quem nasce em Proibido é proibido: “Olá, visitante”
Figura 4 – Tirinha publicada pela cartunista Laerte em seu perfil oficial (@laerteminotaura) no Instagram em 13 de novembro de 2021

Fonte: https://www.instagram.com/p/CWOPnw2lBkj/
Depois do nome próprio, a constituição de um imaginário de nacionalidade. Depois da cidade erguida, surgem os códigos que sustentam a unidade imaginária do pertencimento a um território. Uma vez que a cidade de Proibido tenha cidadãos que a reconheçam como lugar de origem, entram em cena os movimentos migratórios, os intercâmbios culturais, a burocracia alfandegária. Depois que se atravessa a placa “você está entrando em nosso país”, a constatação: em proibido, você pode também ser proibido.
Na segunda tirinha, mais uma vez, vemos como os enunciados circulam pelo urbano, ordenando juridicamente os sujeitos sociais. Agora, em um contexto mais localizado, o das migrações, a orientação do dizer na fronteira do território é provocativa por nos colocar diante de certa opacidade em relação a quem é o visitante e quem é o nativo, como se, de repente, houvesse uma promessa de acolhimento, de igualdade, ou então, de assimilação ideológica nesse território imaginário. Uma promessa que pode ser alcançada pela partilha de um símbolo. Trata-se do processo que Zoppi-Fontana descreve como a “naturalização das injunções que constituem a identidade do sujeito/leitor a partir de oposições dicotômicas de ordem jurídico-administrativa” (1999, p. 60). Isto porque a expressão “nosso país” se articula à máscara que simbolizaria “a cara do nosso país”, produzindo gestos de interpretação que determinam o modo como os sujeitos serão significados naquele território, a saber, como opostos, como não-coincidentes. É certo que estas placas supõem um “sujeito/leitor” estrangeiro àquela organização, no entanto, se “a cara do nosso país” pode ser reduzida a um objeto simbólico que pode ser vestido, nada garante que os processos de significação que determinam quem é habitante e quem é visitante sejam estabilizados.
Retomando Orlandi (2004, p. 12), entendo que há, nesta relação, uma constante tensão entre heterogeneidade e padronização. A quantidade de indivíduos distintos ocupando o mesmo espaço – nesse caso, o país – não impede que efeitos de homogeneização sejam produzidos e, da mesma maneira, a submissão às normas coletivas, por seu caráter de dispersão, não consegue suprimir por completo a individualidade. O “visitante” é convidado a vestir a cara do “nosso país” para ter sua entrada liberada, podendo até compartilhar do mesmo símbolo, mas ainda assim seguirá sendo significado como um indivíduo tangencial, de passagem. A máscara, enquanto significante, recupera no simbólico o passaporte, o visto, todo o processo burocrático de legalização de sua condição como cidadão, elementos que podem ser ameaçados por ondas anti-imigração que se materializam em políticas xenofóbicas, movimento que tem se fortalecido nesta década em regiões como a Europa e os Estados Unidos.
Pensando que o corpo do sujeito está atado ao corpo da cidade, podemos entender a máscara como um elemento do discurso da organização urbana que, como define Orlandi (2004, p. 35), “refere ao empírico e ao imaginário”, trabalhando para montar uma ilusão de unidade nacional, para estabilizar os sentidos que são produzidos sobre uma cidade e seus sujeitos urbanos. Este processo de fixação de sentidos ou essa “formação do consenso”, como propõe Orlandi (2004, p. 57), tem seu respaldo nas “vozes de autoridade” de personagens discursivos que atuam como mediadores, porta-vozes legítimos, “personagens historicamente (socialmente) determinadas” (p. 58). A figura que exclama “olá, visitante” parece cumprir essa função nesta formação social, demarcando para si e para os outros que aquele que chega ao território é um estrangeiro, um outro. Este personagem está respaldado pela força coercitiva da máscara: o senso comum. Nessa perspectiva, a máscara intervém, portanto, para interromper o fluxo que seria próprio da ordem urbana, “domínio do simbólico na relação com o real da história” (Orlandi, 2004, p. 35), verticalizando as relações sociais que se constituiriam horizontalmente neste espaço. Estabelecida esta verticalidade, constitutiva dos espaços de segregação, a “cara do nosso país” jamais poderá ser desmascarada sem que esse gesto resulte na impossibilidade de o sujeito se integrar àquele território. O caráter homogeneizante (para acessarem a cidade, todos devem ter a mesma cara) desta hierarquia produz opacidade na oposição habitante-visitante. Nesta construção, os sujeitos significados como cidadãos também têm este reconhecimento condicionado ao seu enquadramento à organização – domínio do imaginário no qual as “relações sociais são relações de sentido e estas estão, nessas condições, já preenchidas pela sobredeterminação do urbano” (Orlandi, p. 35). Tal “apagamento do social pelo urbano” (p. 35) impede, no limite, que os sujeitos citadinos se reconheçam como cidadãos sem esta proibição. Em Proibido, todos somos. Ou deveríamos ser.
Meu país sou eu: “...”
Figura 5 – Tirinha publicada pela cartunista Laerte em seu perfil pessoal

Fonte: @LaerteCoutinho1 rede social X em 28/02/2021. Disponível no link: https://x.com/laertecoutinho1/status/1365996128869756932
Por fim, o desamparo. É cada um por si em seu corpo-nação.
Corpo-nação, noção discursiva que proponho para esta análise, a fim de nomear o corpo discursivo dos sujeitos imigrantes – em deslocamento ou em diáspora – e dos sujeitos que são marginalizados em seus próprios territórios, ou seja, sujeitos que, submetidos a uma “leitura de exclusão”, não são significados como cidadãos. Esta é uma reflexão que nasce da terceira tirinha de Laerte que costuro a essa leitura. No primeiro quadro, vemos uma personagem que parece entoar, em pé, com certa pompa: “meu país”. Há um cenário atrás dela que remete, a princípio, a uma natureza vasta e que vai, então, se degradando até sair do fundo e se transformar, sob seus pés, em um círculo-fronteira que a encerra ali. Tal como no discurso ecologista criticado por Orlandi (2004, p. 65), aqui a cidade é significada também como “uma monstruosa agressão do homem à natureza”. Reforça-se nesta construção o imaginário de que a cidade, ao se cimentar sobre o desaparecimento da floresta, produziria as injustiças e a violência. Em consonância com a redução do território verde que cercava a personagem, há também a progressiva redução do dizer. A expressão “Meu país.” é submetida a subtrações (“meu”, no terceiro quadro; “país”, no quarto quadro) até que as reticências – simbolizando a interrupção de uma fala e reclamando outros sentidos – prevaleçam. No último quadro, a personagem já não diz nada, sentada no chão da calçada, tendo seu espaço drasticamente reduzido, enquanto segura uma cumbuca que estende em direção à rua, para que alguém deposite ali alguma doação. É interessante pensar como o apagamento do enunciado “meu país” textualiza a interdição do sujeito ao próprio território (ou processos de desidentificação com seu território de origem), de forma que o “meu país” finda sendo o metro quadrado que se puder ocupar. A linha pontilhada, que traceja o círculo (outrora um país) em torno da personagem, a circunscreve em um limite, demarcando o lugar que ela pode ocupar no espaço urbano: o próprio corpo.
Destaca-se, no último quadro, que a personagem está marcada pela vulnerabilidade social: relegada a um círculo em uma calçada, tem apenas o silêncio e uma cumbuca vazia em sua mão. Trata-se, então, de quem não tem acesso ao espaço público, direito à cidade ou mesmo o direito de dizer que pertence a uma nação – são os não credenciados, os outros. O processo de subjetivação do sujeito imigrante ou desterritorializado, traçado pela tirinha, recupera, pela memória discursiva, os sujeitos imigrantes em condições legais ou ilegais, os exilados, os grupos em diáspora religiosa, os refugiados climáticos, os refugiados de guerra, os povos perseguidos e privados de direitos humanos em seu próprio território, como os palestinos, e tantos outros sujeitos cujo pertencimento a um território tem sua significação não-estabilizada. São os desamparados pelo Estado, os excluídos da organização urbana. Amarrando tal imagem à tirinha anterior, aqui estamos diante do sujeito que já não tem mais acesso ao código pátrio, referenciado permanentemente como “visitante”. Trata-se, em suma, da textualização de uma formação social em que se impõe uma ideologia de individualização das responsabilidades, como problematizado por Zoppi-Fontana (1999, p. 60): para a autora, as injunções da organização urbana (como no caso dos avisos nos painéis da Rodoviária do Tietê) convocariam “o sujeito a ocupar o lugar da individualização, do isolamento, do medo, e sobretudo, da responsabilidade: ‘você é responsável’ (pela segurança, pela limpeza, pelo terminal, pela cidade...)”. Esta questão se intensifica se a conectamos ao entendimento de que “no território urbano, o corpo dos sujeitos e o corpo da cidade formam um, estando o corpo do sujeito atado ao corpo da cidade, de tal modo que o destino de um não se separa do destino do outro.” (Orlandi, 2004, p. 11). Neste sentido, dando sequência à proposição da noção que menciono na abertura deste tópico, o corpo-nação se constituiria, portanto, a partir dessa divisão (de classe, jurídica, política) entre o corpo do sujeito e o corpo da cidade. É quando o sujeito social tem desestabilizada a sua circunscrição à organização urbana. O corpo-nação estaria inscrito, então, de modo instável na discursividade urbana e, de modo mais determinado, em outra discursividade, na qual os sujeitos estariam entregues à própria sorte, interpelados pela formação imaginária neoliberal que credita ao esforço, à capacidade de empreender, enfim, ao mérito de seu trabalho a possibilidade de garantir sua cidadania, seu direito de pertencer. Meu país não é meu, Meu país sou eu: são os não-ditos que podemos escutar nas reticências (conjugadas ao limite que aprisiona a personagem) que encerram a tirinha.
Você está saindo de Proibido: Volte Sempre
Figura 6 – Compilação das três tirinhas:uma trilogia urbana acidental

Chegando ao fim da estrada que corta Proibido, entendo que foi possível construir nesta compilação, feita aos moldes de uma leitura-trituração, um corpo discursivo para um processo de urbanização que se inicia na interdição do jurídico à ocupação de um território, passa pelos processos de subjetivação dos sujeitos imigrantes e se encerra no silêncio de quem já não pode enunciar a partir de seu pertencimento pátrio, reduzido a um corpo-nação. Foi possível, então, trabalhar a partir das tirinhas, enquanto objetos simbólicos, “o fato de que a cidade introduz a dimensão da representação sensível de suas formas, ao lado da consideração de um espaço de cidadania” (Orlandi, p. 11).
Como gesto de conclusão, em sentido de retirada da cidade, retraço os caminhos percorridos nesta trilogia urbana acidental, compondo um roteiro para “aproximar” as tirinhas.
No mapa remendado, é possível ver: era imprevisto e, de repente (ou por isso mesmo), é possível nascer em Proibido. A cidade, apesar de proibida pelo enunciado, irrompe, desorganizando as prescrições (tirinha 1). Seus habitantes se multiplicam e todos que chegam devem ser assimilados ideologicamente. Quem é mesmo quem? Quem é este outro se não o mesmo? Há sempre um porta-voz do consenso nos convidando a vestir suas máscaras (tirinha 2). Por fim, o isolamento provocado pela organização hierarquizante do espaço urbano produz uma sociedade que, desamparada pelo estado, se constitui de sujeitos significados como corpos-nação (tirinha 3), despertencidos, interpelados por uma ideologia que preza por soluções individuais.
Referências:
COSTA, Greciely. Sentidos de Milícia: Entre a Lei e o Crime. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2014.
ORLANDI, Eni. Recortar ou segmentar?. In: Linguística: Questões e Controvérsias. Série Estudos. Uberaba: Faculdades Integradas de Uberaba, p. 09-26, 1984.
ORLANDI, Eni. Cidade dos sentidos. Campinas, SP: Pontes, 2004.
PÊCHEUX, Michel. Semântica e Discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1995.
PÊCHEUX, Michel. Abertura do Colóquio. In: CONEIN, Bernard et al (orgs.). Materialidades Discursivas. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2016.
ZOPPI-FONTANA, Mónica. Um Estranho no Ninho – Entre o Jurídico e o Político: o Espaço Público Urbano. Revista Rua, Campinas, número especial: 53-65, 1999.
O esboço deste artigo se originou das discussões articuladas no II Seminário DiADorim, organizado pelo Grupo DiADorim, coordenado por Greciely Costa. Nesta ocasião, fiquei responsável por articular a leitura do artigo “Um Estranho no Ninho – Entre o Jurídico e o Político: o Espaço Público Urbano”, de Mònica Zoppi-Fontana, a um material complementar, um objeto simbólico, que dialogasse com as questões teóricas levantadas.
Cabe destacar que, embora esta tirinha não componha o corpus, escolhi apresentá-la neste tópico para ilustrar/sintetizar o trajeto de análise que será percorrido. Nesta tira de único quadro, a cartunista desenha a si mesma pincelando a frase “poesia é acidental” na traseira de um caminhão. Será neste veículo de “poesia acidental” que este artigo embarcará.
O Road-Movie, ou filme de estrada, é um gênero cinematográfico centrado em narrativas que retratam personagens em deslocamento, narrativas que tem seus conflitos centrais desenvolvidos no decorrer de uma viagem. Esta menção se justifica em razão do exercício analítico que proponho neste artigo se construir como a estrutura de um percurso turístico, de modo que o artigo pode ser tomado pelos leitores como uma narrativa de viagem.
Doutorando em Linguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (IEL/UNICAMP). E-mail: fernandoananias32@gmail.com