O ensaio de Amia Srinivasan considera o retorno do inconsciente como meio de diagnosticar manifestações contemporâneas do irracionalismo político: a guerra de Israel em Gaza, a ampla renegação em relação à crise climática, a ascensão da extrema direita e as guerras de gênero. A autora examina o potencial analítico da psicanálise para a crítica social, ao mesmo tempo que adverte sobre os limites de sua aplicação pública: sem transferência, o diagnóstico do adversário corre o risco de se tornar “dominação hermenêutica”. Ela lê os filósofos Michel Foucault e John Rawls como autores que alertam para esse risco, e Ferenczi e Lacan como tentativas de manejá-lo. Por fim, contrapõe a psicanálise - na qual a libertação exige um deslocamento epistêmico interior - à práxis da organização política de base, mostrando que a agência e a própria psique podem fluir da ação coletiva.
Amia Srinivasan’s essay considers the return of the unconscious as a means of diagnosing contemporary manifestations of political irrationalism: Israel& #39; s war in Gaza, widespread disavowal about the climate crisis, the rise of the far-right, and the gender wars. The author examines the analytic potential of psychoanalysis for social critique, while warning against the limits of its public application: without transference, the diagnosis of one’s adversary risks becoming “hermeneutical domination.” She reads the philosophers Michel Foucault and John Rawls as warning of this risk, and Ferenczi and Lacan as attempts to manage it. Finally, she contrasts psychoanalysis (in which liberation requires an inner epistemic displacement) with the praxis of grassroots political organizing, showing that agency and the psyche itself may flow from collective action.
Para citar essa obra: SRINIVASAN, Amia; BALDINI, Lauro José Siqueira; O Analisante Impossível . In: RUA [online]. Volume 32 -e-ISSN 2179-9911 – 2026. Consultada no Portal Labeurb – Revista do Laboratório de Estudos Urbanos do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade. http://www.labeurb.unicamp.br/rua/
*Amia Srinivasan ocupa a cátedra Chichele de Teoria Social e Política no All Souls College, em Oxford. Dedica-se a temas de epistemologia, teoria política e feminismo, e é autora de The Right to Sex: Feminism in the Twenty-First Century (2020), sem tradução em português. Atua como editora colaboradora da London Review of Books; seus ensaios e textos críticos já apareceram em publicações como The New Yorker, The New York Review of Books e Harper’s. No momento, desenvolve um livro sobre genealogia crítica. ORCID: https://orcid.org/0009-0007-5001-4530. E-mail: amia.srinivasan@politics.ox.ac.uk. **Professor-associado do Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0915-9811. E-mail: ljsbaldini@gmail.com.