Verbetes:

escola de samba

Mariza Vieira da Silva


Escola de samba é uma locução categorizada nos dicionários de língua como um brasileirismo. Os brasileirismos são termos, expressões que marcam, lexicalmente, diferenças entre o Português do Brasil e o Português de Portugal; e são provenientes de outras línguas como as indígenas e as africanas, ou mesmo, se vindas de Portugal, são aqui ressignificadas. São termos, pois, que condensam, de forma ambígua e contraditória, nossa brasilidade.

Segundo o Novo Dicionário Aurélio (1975), escola de samba é uma “sociedade musical e recreativa, composta de sambistas, passistas, compositores, músicos, figurinistas, etc., e que promove festejos, espetáculos e desfiles (especialmente durante o carnaval); e designa, também, a sede, o espaço físico em que se realizam as atividades dessa sociedade. Aqui Escola é predicada pela palavra “samba”, também um brasileirismo, que significa “uma dança cantada, de origem africana, compasso binário e acompanhamento obrigatoriamente sincopado”, e “a música que acompanha essa dança”; sendo o “samba enredo”, o “samba composto especialmente para ser cantado durante os desfiles das escolas de samba por ocasião do carnaval”, lembrando, ainda, que “a letra desse samba e o enredo do espetáculo em desfile têm um tema em comum, que é sempre de fundo histórico-patriótico” (Idem).

Para Roberto DaMatta (1990), falando de carnaval, escola foi 

[...] um nome fixado pelo tempo para grupos sabidamente ignorantes, sistematicamente perseguidos pela polícia e residentes nas favelas dos morros do Rio de Janeiro. Eles que, no mundo diário, vivem aprendendo nossas regras e ocupam nossas cozinhas e oficinas, surgem agora como professores, ensinando o prazer de viver atualizado no canto, na dança e no samba. Revelam, por trás de um surpreendente poder de arregimentação e ordem, uma fantástica vitalidade e amor à vida (p. 104).

Nas definições e estudos associados às escolas de samba, temos um terceiro termo sempre presente: o “carnaval”, cuja etimologia remonta ao latim, referindo-se à “véspera da Quarta-Feira de Cinzas, dia em que se inicia a abstinência de carne exigida na Quaresma” (Houaiss online). Trata-se, pois, de um “período anual de festas profanas, originadas na Antiguidade e recuperadas pelo cristianismo, e que começava no dia de Reis (Epifania) e acabava na Quarta-Feira de Cinzas, às vésperas da Quaresma; constituía-se de festejos populares provenientes de ritos e costumes pagãos e se caracterizava pela liberdade de expressão e movimento” (Idem).

O tempo na escola de samba, considerado em sua dimensão histórica, é marcado pela relação entre o sagrado e o profano, produzindo uma rede semântica que envolve “diversão”, “folia”, “brincadeiras”, “música, “dança”, transgressão”, “desregramento” e, ao mesmo tempo, “pecado”, “culpa”, “sexo”, “mortificação da carne”, “abstinência” etc. Nesse sentido, “o tempo do Carnaval é cósmico e cíclico, remetendo os participantes do ritual para fora do contexto brasileiro, colocando-os em contato com o mundo do sagrado, do divino ou do sobrenatural”, diz DaMatta (1990, p. 45). Contudo, com a palavra “samba”, determinando “escola”, temporalizamos o carnaval no espaço brasileiro, e produzimos uma configuração escolar própria, em um trabalho complexo, paradoxal e contraditório entre disciplinarização e liberdade, entre submissão e resistência, entre reprodução e transformação, entre corpo e alma.

A escola de samba consegue trabalhar, de maneira original, a forma-escolar, articulando saber-fazer-prazer e criando condições para a ação e a criação individual e coletiva, no ritmo do samba e nas fronteiras simbólicas movediças do espaço e do tempo de uma instituição de uma sociedade como a nossa.

 

Referências bibliográficas

DaMATTA, R. Carnavais, malandros e herói: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1990.

FERREIRA, A. B. de. Novo dicionário AURÉLIO da língua portuguesa. 1ª edição, 14ª reimpressão. Rio de Janeiro: Record, 1975.

HOUAIS, A. Grande Dicionário HOUAISS Beta da língua portuguesa. Disponível em http://houaiss.uol.com.br . Acesso em 19 de abril de 2013.