Tupi (Características)

Por: José Horta Nunes

Embora se conheça menos sobre as demais famílias linguísticas do tronco Tupi, o que se sabe até aqui permite mostrar o parentesco entre elas. O quadro abaixo, apresentado por Rodrigues (1986), mostra a comparação entre 6 línguas pertencentes a diferentes famílias: o Tupinambá (Tb), da família Tupi-Guarani; o Mundurukú (Mu), da família Mundurukú; o Karitiâna (Ka), da família Arikém; o Tuparí (Tp), da família Tuparí; o Gavião (Ga), da família Mondé; e o Awetí, língua isolada ao nível familiar. Note-se que a família Juruna, representada pela língua Juruna, não está aí contemplada, visto que Rodrigues afirma que ela não havia sido estudada até então por linguistas: 

 
Tb
Aw
Mu
Ka
Tp
Ga
1. mão
po
po
by
py
po
pabe
2. pé
py
py
i
pi
tsito
pi
3. caminho
pe, ape
me
e
pa
ape
be
4. eu
ixe
atit, ito
on
yn
on
õot
5. você
ene
en
en
an
en
eet
6. mãe
sy
ty
xi
ti
tsi
ti
7. pesado
posyi
potyi
poxi
pyti
potsi
patii
8. marido
men
men
itop
mana
men
met
9. onça
iawar
ta’wat
wida
omaky
ameko
neko
10. árvore
‘ yb
‘ yp
‘ip
‘ep
kyp
‘iip
11. cair
‘ar
‘at
‘at
‘ot
kat
‘al-
 

 Ainda que se possa, também, indicar diferenças entre as línguas dessas famílias, a partir dessas semelhanças supõe-se, da perspectiva comparatista, que deva ter existido uma língua ancestral comum, que se convencionou chamar de Proto-Tupi. Uma reconstrução esboçada dessa língua, segundo o autor, admite a existência de uma raiz para o conceito de “casa” possivelmente com a forma *ekw,, a existência de um marcador de primeira pessoa *o-, assim como de uma raiz *po significando “mão”, de uma raiz *py, significando “pé”, de uma raiz *men significando “marido”, etc. Porém, considerando-se que não há documentação dessa língua ancestral e do percurso histórico que teria levado a essas famílias linguísticas, acredita-se que para se conhecer mais detalhes do tronco Tupi será preciso desenvolver consideravelmente o conhecimento das línguas atuais.

É preciso ter em vista, diante desses quadros, alguns fatos que escapam à classificação genética, ao mesmo tempo em que se apresentam como realidades linguísticas incontornáveis. Um deles consiste na própria operacionalização das noções de língua e dialeto, sendo que os critérios de distinção variam muito. Como afirma L. Seky (2000), em relação ao total de línguas indígenas brasileiras, “não há absoluta certeza quanto ao número, o que se deve às dificuldades inerentes à definição técnica do que seja propriamente uma língua (em relação a dialeto, formas antigas e modernas etc.), agravadas pela carência ainda existente de informações sobre as línguas e seus falantes”.

Outro fato a ser considerado é o contato linguístico, com a consequente mistura de línguas. Como mostra Orlandi (1990), desde a Época Colonial diversas formas de contato se apresentam no contexto brasileiro, as quais envolvem as línguas indígenas tanto no contato entre si quanto com a língua portuguesa. Acrescentem-se ainda as chamadas “línguas gerais”, resultantes de algumas dessas formas de contato. Note-se que o nome Língua Geral às vezes é utilizado como sinônimo de Língua Brasílica da Época Colonial ou de tronco Tupi(TRONCO)|Tupi, reunindo as línguas que constituem esse agrupamento. Porém, o nome “Língua Geral” diz respeito também a uma Língua Franca, no caso uma língua comum a índios, mestiços, colonos, negros, enfim, aos falantes que se encontram nos espaços de contato linguístico das frentes colonizadoras. Duas das mais conhecidas línguas gerais são a Língua Geral Paulista e a Língua Geral Amazônica. A Língua Geral Paulista, ou Língua Geral do Sul teve origem, segundo Rodrigues (1986), na língua dos índios Tupi de São Vicente e do alto rio Tietê, a qual diferia um pouco da língua dos Tupinambá do litoral. É a língua falada por bandeirantes, pioneiros e aventureiros que exploravam as regiões de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e o Sul do Brasil. Em São Paulo, ela foi dominante no século XVII e, a partir do século XVIII, com as medidas pombalinas (Mariani, 2004), passou a ser suplantada pela língua portuguesa. A Língua Geral Amazônica ou Nheengatú, desenvolvida inicialmente no Maranhão e no Pará, a partir do Tupinambá, foi a língua usada no processo de ocupação amazônica e é falada até hoje na bacia do rio Negro, sendo mais documentada que a Língua Geral Paulista.

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Publicado em: December 15, 2010