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Em seu vigésimo terceiro número, a revista Rua publica um conjunto de artigos, em sua seção Estudos, que procuram trazer à tela diferentes práticas cotidianas espacializadas na cidade ou no campo e sustentadas por tecnologias urbanas diversas. Artigos que olham para estas práticas buscando antever e compreender os processos simbólicos e políticos que constituem os sujeitos dessas práticas. Começamos com o artigo de Rogério Modesto e Liliane dos Anjos, Um social dividido, um não-lugar encenado pela fuga, no qual os autores se propõem compreender o funcionamento discursivo de gestos de fuga textualizados em cenas prototípicas, tomadas por eles enquanto cenas que trabalham a evidência de um social dividido em grupos polarizados, como se as classes sociais existissem antes da luta de classes. Em seguida, Rafaela Scardino nos apresenta, em Politizar espaços e discursos: literatura, arte e direitos humanos na América Latina, uma reflexão sobre a produção artivista latino-americana, analisando diversas modalidades artísticas como modos de dar a ver não apenas grupos sociais que se quer excluir da cidade, mas a própria cidade, propondo pensar a questão dos movimentos sociais na América Latina por meio de relações que atravessam cidades, arte e direitos humanos. Em O discurso ufanista materializado no corpo, Naiara Souza da Silva e Stella Aparecida Leite Lima trazem uma análise sobre o imaginário que perpassa a representação que se materializa no corpo, por meio da tatuagem da bandeira do RS, entendendo a tatuagem como discursividade. Por sua vez, Fernanda Cristina de Paula e Eduardo Marandola Junior apresentam, em A demanda de Marcovaldo: apropriando-se do banco-cama na cidade, uma análise sobre a apropriação do espaço, a partir de um conto do livro “Marcovaldo ou as estações na cidade”, de Italo Calvino, compreendendo que a apropriação do espaço participa da ontologia humana. Em Cidade, memória e a formação de sentidos urbanos na dialética do espaço geográfico, Alex Manetta alia reflexões oriundas de diferentes lugares disciplinares sobre cidade, memória e formação de sentidos urbanos, a partir das especificidades do conceito de espaço geográfico, enfatizando que a cidade, enquanto materialização do espaço geográfico, em um batimento contínuo entre memória e atualidade, permite o desenvolvimento de formas inéditas de uso, ocupação e (re)significação do espaço urbano. Por seu lado, Sidney Bressan e Maria Luiza de Souza Lajús, no artigo A casa que habito: relatos de um reassentamento urbano, analisam a apropriação do espaço residencial, a partir dos relatos de famílias que moravam em áreas irregulares e consideradas, pelo poder público, como de risco e que foram reassentadas em um conjunto de Habitação de Interesse Social, na cidade de São Domingos/SC. Em Adaptação e resiliência do espaço comercial de rua: a 25 de março, Gabriela Krantz Cesarino e Valter Luiz Caldana Junior discutem o conceito de resiliência adaptativa através de um breve estudo da rua 25 de Março, considerada o mais importante centro comercial da cidade de São Paulo, mostrando que, na cidade contemporânea, complexidades e contradições não impedem, mas, ao contrário, contribuem para que o sistema urbano se sustente no longo prazo. Já Cristiane Bernardo, Juliana Bernardes, Silvia Vieira e Ana Elisa Lourenzani, no artigo Espaço rural e espaço urbano: pluralidade conceitual e as tecnologias de informação e comunicação, se perguntam como as tecnologias de informação e de comunicação podem auxiliar para uma maior interação entre o espaço rural e o espaço urbano, observando o papel da comunicação, em específico das Tecnologias de Informação e de Comunicação, como mediadora na compreensão destes espaços e nas interferências mútuas que ocorrem. Fechando a seção, temos Imagens em (dis)curso: argumentos em circulação nas “novas tecnologias”, em que Fabiana Claudia Viana Borges analisa imagens que constituem um arquivo de grandes eventos, como discursos proferidos por Barack Obama, missas realizadas pelo Papa Francisco e letreiros expostos no estádio de futebol Itaquera, procurando observar o funcionamento da argumentação como um efeito discursivo nestas diferentes formas de estar em público.

O leitor conta ainda, na seção Artes, com o ensaio fotográfico Paris meu amor, a noite, de Flora Nguyen. E, na seção Notícias e Resenhas, poderá ler as notícias do Labeurb e a interessante resenha de Mauricio Pedro da Silva a respeito de O antropólogo e o mundo global, de Marc Augé, publicado em 2013 pelo autor e traduzido em 2014 no Brasil.

Boa leitura!