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vadia

Dantielli Assumpção Garcia


 

Mulher – Feminismo – Marcha– Gênero – Machismo

Definir a palavra vadia coloca em funcionamento diferentes discursividades que dizem o que é ou não ser mulher. A palavra traz, além de um discurso machista, patriarcal, a memória de diversas lutas feministas de séculos, as quais buscaram/buscam fundar outros dizeres sobre a mulher e sua relação com seu corpo e com a sociedade.

Em dicionários – lugares de memória, por exemplo, vadia é a “mulher de vida licenciosa, sem ser necessariamente prostituta; vagabunda” (www.aulete.com.br). No instrumento linguístico, vadia é a mulher que não respeita as normas, que é sensual, libidinosa, que demonstra “desregramento moral e/ou sexual” (www.aulete.com.br). Vadia é a mulher que apresenta um comportamento que escapa ao que é imposto/regrado pela sociedade machista. Por ser desregrada (sexual e moralmente) a mulher é vadia. Vadia, no dicionário, funciona como sinônimo de vagabunda, mas não necessariamente prostituta (a qual também é vista como vadia “por ter a vida sexual desregrada”). Ao analisarmos, o verbete vadio, não temos essas discursividades apresentadas. O homem vadio é aquele que é desocupado, que não se esforça no trabalho, que não tem domicílio (www.aulete.com.br). Não se traz a questão da sexualidade masculina às definições. Em termos de sexualidade, o homem não é visto como “moralmente desregrado”, somente a mulher deve conter seus desejos e não ser licenciosa. Há, na definição de vadia, um discurso machista, patriarcal que interpela a mulher para que esta se constitua como um sujeito sem desejos, sem voz.

A palavra vadia passa funcionar, na atualidade, em virtude do movimento feminista “Marcha das Vadias”. Esse movimento surgiu no Canadá no ano de 2011 a partir de um episódio ocorrido na York University em que um policial, Michael Sanguinetti, em uma palestra, recomendou que “as mulheres evitassem se vestirem como putas para não serem vítimas de estupro”. Como reação a essa fala que culpabiliza a vítima (vemos esse dizer funcionando em diferentes materialidades, as quais colocam que a mulher “merece ser estuprada. Lembremos a pesquisa do INEP ou a fala de Bolsonaro), organizou-se a SlutWalk, na tradução adotada no Brasil, Marcha das Vadias. A Marcha espalha-se rapidamente pelo mundo e já em 2011 passa a fazer parte do cenário de inúmeras cidades brasileiras (Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Campinas, Recife, Ouro Preto, Pelotas entre outras).

A Marcha das Vadias tenta romper com certos sentidos, estabilizados na memória da sociedade, que circulam acerca do que é ser mulher e do que é ser vadia. A Marcha, em um gesto de resistência, busca contradizer o dizer dominante sobre a posição da mulher na sociedade e fazer circular um dizer que coloca a mulher como um sujeito que tem voz, que tem algo a dizer sobre a posição do “segundo sexo” (Simone de Beauvoir) à sociedade.

A mulher vadia na Marcha é a que ocupa espaços de poder, é dona de seu corpo, é mãe solteira, entende de Matemática, de mecânica, transa com quem e quando quiser, aborta. Há a tentativa de romper com um discurso-outro que aponta para as “normas” que a mulher deve seguir na sociedade para não ser vítima de violência – seja física, ou simbólica (por meio de uma designação) –; não merecer ser estuprada.

A vadia é a mulher em luta: pelo fim da violência contra a mulher, da transfobia, da bifobia, da lesbofobia, do racismo. É a mulher que vai ocupar espaços na sociedade, mesmo esta dizendo que “moralmente” isso não lhe é permitido.