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bairro-educador

Maria Teresa Martins


     Expressão usada por Gilberto Dimenstein e que nomeia uma proposta de se juntar o que é valorizado nos condomínios de luxo (lazer, segurança e infra-estrutura) com o que é valorizado nas favelas (o laço social que faz desse espaço uma comunidade). No artigo “Segurança dos ricos está em Heliópolis”1, Dimenstein propõe que se pense o bairro-educador como “condomínio sem muros e educativo”. No mesmo artigo, o jornalista cita a Escola de Administração de Harvard, que premiou o projeto e define bairro-educador como “modelo de comunidade inteligente”. Para o jornalista, os sujeitos habitantes do bairro-educador não são nem “ricos”, “vítimas” ou “milionários” (remetidos aos condomínios), nem “traficantes” ou “marginais” (remetidos às favelas), mas sim “capital humano”. Essa denominação toma os sujeitos moradores do bairro-educador pela discursividade da Economia: enquanto capital, os sujeitos podem render ao receber investimento social, educacional e cultural. Os marginalizados, que se tornam capital humano, rendem a segurança dos ricos.

Vista de Heliópolis, onde é desenvolvido o projeto de Bairro-educador.

Foto: http://www.maxestrella.com/artistas/dionisio/expo%2007/heliopolisII_g.jpg – Acessado em 26/05/2010.

     O projeto de bairro-educador desenvolvido em Heliópolis envolve o trabalho conjunto de Antonio Candido (instalação de uma biblioteca), Ruy Otake (reforma das casas) e Silvio Baccarelli (Sinfônica Heliópolis). A discursividade educacional e sócio-econômica atravessa também o discurso do Instituto Baccarelli sobre o projeto em Heliópolis: “Os alunos que compõem a Sinfônica são de famílias de baixa renda e recebem bolsa auxílio para que possam se dedicar ao estudo instrumental e conquistar seu espaço no meio artístico”2. O representante do Instituto em Heliópolis, Edílson Ventureli, afirmou no documentário “Heliópolis – Bairro Educador” (2008)3: “Agora olha que bacana, Heliópolis que era uma favela até tempos atrás, daqui a pouco tem um teatro, tem uma FATEC, tem sala de cinema com centro de convenções, tem creche pra atender suas crianças, realmente é a transformação em um bairro educador. E está irradiando pra fora já, não só as nossas ações como outras ações desenvolvidas dentro de Heliópolis são modelo hoje no Brasil. (...) A gente está aqui no meio de uma comunidade pobre, que era uma favela e hoje está se transformando em um bairro com o apoio do Estado fazendo música erudita. E olha que bacana, assim hoje a gente recebe inclusive pessoas de outros Estados, de outras cidades de São Paulo. A gente tem aqui gente que saiu de Manaus, de Belém do Pará, de Fortaleza, de Natal, de Santa Catarina pra estudar música erudita onde? Em Heliópolis. Não é, ou seja, é Heliópolis oferecendo para a sociedade civil, para a sociedade organizada, aquilo que a sociedade um tempo atrás não lhe deu”. Esse fragmento do documentário ilustra o discurso que atravessa o vídeo: haveria um movimento de transformação pelo qual Heliópolis vem passando no sentido de deixar de ser favela e passar a bairro-educador, pelo efeito de uma rede de articulações entre Heliópolis, o Governo, as iniciativas citadas acima e a sociedade. A sociedade é colocada como externa a Heliópolis.

Ainda no documentário, pode-se observar a fala do diretor da Escola Campos Salles, Braz Nogueira, definindo o que significa para ele um bairro-educador: “um bairro educador é aquele bairro onde todos estão preocupados com todos, onde há articulação, onde há construção coletiva, onde todos os setores tentam se articular para atender da melhor forma possível as necessidades das pessoas”.

Inicialmente, a proposta de bairro-educador foi implementada em São Paulo, em Heliópolis, mas atualmente, o Rio de Janeiro também tem sediando o projeto: Cidade de Deus, Complexo do Alemão e Complexo da Maré (2009). De acordo com o Portal Aprendiz UOL: “A ideia é que as escolas consigam estabelecer relações com seu entorno. Para fazer essa articulação, o governo está formando professores para serem educadores comunitários. Eles também serão responsáveis por identificar e aproveitar os potenciais educativos do bairro e da cidade”4. O Portal O Dia Terra, afirma: “O Bairro Educador é uma vertente do projeto Escolas do Manhã, que começa este semestre em 150 escolas municipais em áreas de risco. Além das oficinas, o programa permitirá queCena do documentário "Heliópolis - Bairro-Educador", Ferezini, 2008. Foto: Divulgação

o entorno das unidades seja revitalizado a partir de diagnóstico dos problemas de infra-estrutura feito pelos próprios estudantes”5.

 

 

Maria Teresa Martins

 

Referências

 

  1. DIMENSTEIN, G. Segurança dos ricos está em Heliópolis – Folha de São Paulo – 06/09/2009.
  2. PROJETO SINFÔNICA HELIÓPOLIS. Disponível em: http://www.institutobaccarelli.org.br/sinfonica/oprojeto.php.
  3. FEREZINI, A. Heliópolis – bairro –educador. Documentário. São Paulo: Maria Bonita Filmes; Fundação Padre Anchieta, 2008.
  4. PORTAL APRENDIZ UOL. Rio de Janeiro terá “bairro educador” e mãe comunitária. Disponível em: http://aprendiz.uol.com.br/content/specouiwif.mmp.
  5. PORTAL O DIA TERRA. CDD será bairro educador. Disponível em: file:///C:/Documents%20and%20Settings/Maria%20Tereza/Desktop/cdd_sera_bairro_educ
  1. ador_27405.html