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trecheiro

José Horta Nunes


A palavra "trecheiro" parece ser de  aparição recente, visto que ela não se apresenta nos dicionários Aurélio[1] e Houaiss[2] e vem substituir ou se distinguir de palavras como andarilho, mendigo, migrante, vagabundo, morador de rua, dentre outras. Ela surge em um momento em que os sujeitos que freqüentam a rua buscam modos de se significar na cidade, evitando sentidos pejorativos ou que os coloquem em uma posição indesejável. Em um trabalho de iniciação científica veiculado pela Internet[3], um grupo de antropólogos da Universidade de São Paulo apresenta resultados de uma pesquisa sobre trecheiros na cidade de São Carlos, na qual se apresentam significados dessa palavra, assim como de várias outras relacionadas, que formam um vocabulário específico.  O trecheiro é visto na pesquisa como parte de uma "população migrante e itinerante". Trata-se daquele que "não pára em lugar nenhum, vive na rua, pingando de cidade em cidade e sobrevivendo de bicos e correrias". Os trechos "são espaços urbanos (territórios) apropriados pelos trecheiros e pelos quais eles pingam (transitam)". A palavra correria remete aos "mecanismos de busca como pedir esmolas, olhar carros, praticar furtos e, eventualmente, trabalhar, informalmente, para aquisição de aguardente, drogas, comida e medicamentos, bem como o dinheiro necessário para a realização dessas trocas". A palavra banca significa um grupo de trecheiros. Já o nome galo é utilizado para indicar os bens dos trecheiros ou o objeto em que se transportam esses bens: "galo significa qualquer tipo de sacola, mala ou mochila que sirva de relicário para os bens pessoais de cada trecheiro (roupas, fotos, bilhetes, cartas etc.)". A pinga é um elemento simbólico entre os trecheiros, através do qual se pode atingir tanto o estado de doença como o de saúde: "beber pinga é uma maneira de reafirmar seu estado de saúde, pois tudo que se relaciona à abstinência relaciona-se consequentemente, ao estado doentio". Ainda segundo os antropólogos, o trecheiro se distingue do morador de rua pelo seu caráter itinerante. O morador de rua é visto pelo trecheiro como uma figura frágil, alcoólatra, doente mental e abandonada pela família, ligado à fixidez e à marginalidade, ao passo que o trecheiro está relacionado, com uma valoração positiva, ao nomadismo enquanto uma opção ou estilo de vida. O nome pardal é utilizado pelos trecheiros para remeter àquele que se fixa numa cidade, sobrevivendo de bicos e correrias. Trecheiro se distingue também de migrante pelo fato de que o segundo viaja com a família em busca de emprego, enquanto o primeiro vive do expediente itinerante, marcado pela instabilidade e transitoriedade. Os trecheiros são assistidos por instituições como albergues, órgãos da administração pública e instituições religiosas e de apoio à chamada "população em situação de rua". Por não ter a intenção de abandonar esse estilo de vida, a conduta do trecheiro é considerada nos albergues como "vagabundagem". Enfim, do ponto de vista dessa pesquisa antropológica, há um posicionamente contrário à visão do trecheiro como "excluído social", enquanto se sustenta um olhar para a interpretação do seu "viver na rua" ou de sua "vivência".

Enquanto no discurso antropológico se tem em vista a vivência do "nativo" que está nas ruas, em outras discursividades nos deparamos com sentidos políticos de mobilização e reivindicação, por vezes ligados a uma perspectiva religiosa. Um dos mais fortes movimentos nesse sentido se pode observar em "O Trecheiro", um jornal mensal que divulga notícias sobre "homens e mulheres em situação de rua da cidade de São Paulo e de outras cidades brasileiras". Os sujeitos aí são vistos em processo de "mudança", como se nota nesta notícia sobre a posse do Presidente Lula em janeiro de 2003: "O jornal 'O Trecheiro' registra este momento tão importante para a história do povo brasileiro. E pode vir a ser decisivo para as mudanças de quem faz das ruas das cidades moradias, dos albergues suas casas e do bico uma profissão. Toda essa mudança depende muito de cada um, de cada uma que está em situação de rua." [4]. O trecheiro é visto nesse contexto como alguém a ser chamado para a luta pela "dignidade": "Vamos a luta pelo pão, pelo teto e principalmente, para conquistar a dignidade do ser humano, com direito a uma vida plena". Aliando o discurso político e o discurso religioso, a notícia cita Leonardo Boff, que em entrevista ao jornal afirma que "Em nome dessa dignidade você tem direito de reclamar para que se mudem as coisas e você possa ter sua casinha, seu trabalho e você possa comer com o fruto do seu dinheirinho. Enquanto isso não vier, a comida que te dão, não é uma esmola. é um direito que você tem. Você é um cidadão dessa terra, um filho da terra que tem o direito de ter um pedacinho da terra na forma de um feijão, um arroz, de um pedaço de carne". Os sentidos de trecheiro deslizam do político (cidadão) ao religioso (irmão), de modo a caracterizar a cidade no duplo plano terreno e divino, retomando-se a visão de Santo Agostinho: "nessa grande cidade que nós aceitamos, porque ela não é só cidade dos homens, é cidade de Deus". O trecheiro então, nesse discurso, é um ser humano (filho de Deus) em busca da dignidade, e um cidadão (irmão, companheiro) que luta por seus direitos à alimentação, à moradia, ao trabalho, à terra. Segundo um integrante do Movimento Nacional da População em Situação de Rua, Samuel Rodrigues, no UOL notícias[5], a mobilização política dos trecheiros é difícil devido ao fato de eles não permanecerem na cidade, além de serem objeto de procedimentos higienistas que levam à dispersão dessas pessoas, que são "varridas" dos centros. A palavra trecheiro, assim, é um índice de uma prática de freqüentadores de rua que constroem uma representação coletiva e se ligam a movimentos sociais que lhe conferem, ao lado de sentidos religiosos, força política para a realização de suas reivindicações.

 


[1] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio Século XXI: o dicionário da língua portuguesa / Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. 3ª ed. totalmente revista e ampliada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

[2] HOUAISS, Antônio. Colaboradores: Mauro de Salles Villar e Francisco Manuel de Mello Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 1.ed. País: BrasilEstado: Rio de JaneiroRio de Janeiro: Objetiva, 2001-2001.

[3] 1. GARCIA, C. Z.; CARVALHO, M. C.; MARTINEZ, M.; ZANETTI, M. Vivendo no trecho: um ensaio etnográfico sobre “moradores de rua”. Pontourbe. Revista do Núcleo de Antropologia Urbana da USP. Ano 2, versão 3.0, julho de 2008.

[4] O Trecheiro. Notícias do Povo da Rua.. nº 104, Ano XII, janeiro de 2003. São Paulo: Associação Rede Rua.

[5] Estronioli, Elisa Moradores de rua protestam na Câmara de SP e pedem programa habitacional próprio. UOL Notícias, 27/05/2009 - 09h26. http:/noticias.bol.uol.com.br/brasil/2009/05/27/ult5772u4135.jhtm. Acesso em 04/06/2010.

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