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aquecimento global

Claudia Pfeiffer


A partir, sobretudo, da década de 90 do século XX, a mídia começou a dar visibilidade para o aquecimento do planeta terra como um novo problema em nível mundial. Este fato científico – o aumento da temperatura da terra – foi denominado de aquecimento global e tematizado por organizações internacionais como a ONU (Organização das Nações Unidas), por organizações não governamentais como o Greenpeace, por organismos de pesquisa, como as Universidades, por setores governamentais, como o ministério ou uma secretaria de meio-ambiente, e pelas mídias em geral.

Muitas reuniões internacionais ou não foram realizadas em torno deste tema. Dois acontecimentos mundiais são sempre referidos neste assunto: a ECO-92 e o Protocolo de Quioto. O primeiro ocorrido no Brasil, em 1992, e o outro no Japão, em 1997, foram reuniões organizadas pela ONU – a primeira deste gênero ocorreu em Estocolmo, em 1972, mas ainda não tematizava o aquecimento da terra, mas sim a degradação do meio ambiente – com o principal objetivo de criar condições para que a emissão dos assim chamados “gases de efeito estufa” fosse diminuída.

Como há um conjunto significativo de reuniões organizadas pela ONU, é preciso observar que a Conferência de Estocolmo – a primeira delas – inaugura, de um ponto de vista discursivo, o processo de institucionalização do sentido de degradação ambiental. Discursividade esta que coloca, no homem, o sentido de algoz de uma natureza vitimizada; que silencia o homem como fazendo parte do meio ambiente, da natureza; que faz de cada homem individualmente a razão para a degradação, silenciando que há populações inteiras degradas; silenciando que as razões para a degradação que se dá no meio ambiente, incluso o homem, são de ordem econômica, política, histórica e social e não de ordem individual.

É preciso citar ainda o documento “Nosso Futuro Comum” feito pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1987, também a pedido da ONU, que traz a público o conceito de “desenvolvimento sustentável”, definido como “a competência da humanidade em garantir que as necessidades do presente sejam atendidas sem comprometer a qualidade de vida das gerações futuras”.

Este documento faz parte de um gesto inaugural, do ponto de vista social, de um discurso extremamente estabilizado mundialmente: o do desenvolvimento sustentável. Um ponto importante de ser observado nesta discursividade é a projeção do futuro. Ela abre condições de produção para um discurso de Estado (nacional ou desterritorializado na posição de organismos internacionais) que projeta um futuro, silenciando um presente. Não há definição, nesta discursividade, de o que seja uma necessidade, de o que seja qualidade de vida, e de qual parcela da humanidade serão contingenciadas as necessidades do presente para garantir às gerações futuras (cujo escopo também não está claro) a qualidade de vida. Aliás, parte-se do pressuposto, pouco sustentável(!), de que as gerações presentes têm – todas elas – suas necessidades atendidas para uma qualidade de vida presente, a depender do que signifique necessidade e qualidade de vida. Como se vê, há muita polissemia e ao mesmo tempo muita transparência de sentidos em jogo.

Estas duas discursividades construídas histórico-politicamente – a da degradação do meio ambiente e a do desenvolvimento sustentável – estão na base dos discursos sobre o aquecimento global.

Retornando aos dois encontros sempre referidos nos discursos sobre o aquecimento global, destaca-se que, no encontro da ECO-92, foram estabelecidas, como diretriz geral, recomendações de cortes de emissões de gases de efeito estufa e, em Quioto, foi assinado o Protocolo de Quioto que estabelece a redução das emissões de gases de efeito estufa aos mesmos níveis médios de 1990. Observe-se que os EUA não assinaram o Protocolo que tem 175 países signatários.

Como se pode observar, o Aquecimento Global é um tema discutido pela ciência, pelos organismos internacionais, pelos Estados nacionais, pelos movimentos organizados civis, e pela mídia.

No discurso da ciência, a definição mais consensual existente – lembrando que discurso algum é homogêneo, então, portanto, a ciência não é homogênea – é a de que o aquecimento global é causado pela intensificação do efeito estufa que, por sua vez, é consequência do excesso da concentração de determinados gases na atmosfera, os chamados gases de efeito estufa, dentre eles o dióxido de carbono, o metano e o óxido nitroso. A principal fonte desses gases tem sido atribuída particularmente à queima de combustíveis fósseis e ao desmatamento, ou seja, a ações humanas. Associado a isso, o discurso científico vem afirmando há bastante tempo que o efeito estufa atmosférico é responsável pela vida na Terra garantindo um equilíbrio de temperatura que garante por sua vez a sobrevivência das diferentes espécies existentes.

Em síntese, podemos dizer que esta posição hegemônica da ciência defende que a temperatura da Terra está aumentando em uma velocidade muito maior nos últimos 150 anos e que esta velocidade no aumento da temperatura se deve à concentração maior de determinados gases na atmosfera, aumento ocasionado pelos modos e meios de produção da economia vigente e pelos hábitos de consumo da maior parte das sociedades presentes.

Na base deste discurso encontra-se a construção de um conhecimento interdisciplinar que aponta razões antropogênicas heterogêneas para que o aumento da temperatura da Terra esteja acontecendo e expõe os Estados nacionais e os organismos internacionais à necessidade urgente de medidas revolucionárias nos modos e meios de produção, ao mesmo tempo em que expõe os indivíduos que compõem as sociedades à necessidade urgente de mudanças de hábitos.

Isso explica em grande medida o porquê de um dos principais efeitos das atividades humanas relatadas nos textos midiáticos, de política pública e científicos ser o de alterar a composição da atmosfera mundial pelo aumento da concentração de gases de efeito estufa.

Há ainda a relação estabelecida pelo discurso da ciência entre o aquecimento global e as mudanças climáticas, sendo este considerado uma das principais razões para que esteja havendo “eventos climáticos extremos” com uma frequência maior e em lugares nos quais antes não ocorriam. Ou, ainda, que esteja havendo mudanças no clima típico de uma região em uma determinada época.

O termo aquecimento global acabou sendo menos usado atualmente do que na década de 90 e início dos anos 2000, sendo substituído paulatinamente pelo de “Mudanças Climáticas Globais”, sobretudo depois que o IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) começou a ficar visível socialmente (publicamente, por meio da mídia), muito em função do livro e do filme sobre o livro “Uma Verdade Inconveniente” do ex-vice-presidente dos EUA – Al Gore – e dos eventos extremos ocorridos em 2003 e 2004.

No filme, chama-se a atenção para os diversos fenômenos catastróficos já ocorridos em todo o mundo, como o furacão Katrina nos Estados Unidos, as intensas ondas de calor na Europa, as inundações na China e o derretimento das geleiras do Monte Kilimanjaro.

Vê-se, então, que o aquecimento global começa a fazer sentido publicamente quando associado a tragédias monumentais e cinematográficas.

 

 

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