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cidade escola

Mariza Vieira da Silva


No discurso do urbanismo brasileiro, a Cidade aparece significada como uma Escola, ou seja, como um espaço-tempo de civilização, de progresso, de modernização, de homogeneização. O urbanista brasileiro Armando Augusto de Godói, um dos responsáveis pela construção de uma nova capital para o Estado de Goiás – Goiânia -, em 1942, explicita esse campo de significação, ao tratar do tema da cidade associado à construção de um Brasil moderno, no que isso possa significar naquela conjuntura.

Hoje, graças à evolução social e ao fato de que a humanidade tenha entrado francamente na era industrial, a cidade moderna é um centro de trabalho, uma grande escola onde se pode educar, desenvolver e apurar os principais elementos do espírito e do físico do homem, e uma fonte de poderosas energias sem as quais os povos não progridem e não prosperam. Hoje, é das cidades modernas que partem as vigorosas impulsões coletivas e é por elas que se faz a coordenação dos movimentos e das atividades de uma nação (apud Vidal, 2009, p.155).

Godói também identifica e qualifica o sujeito dessa cidade escola: “A cidade, tal como a idealizou Howard [...]. é uma admirável escola para as massas populares, conduzindo-as ao nível da civilização moderna, educando-as e dirigindo suas atividades na boa direção (Idem, ibidem, p. 156)”.

Nessa cidade escola, os sentidos se produzem em relação a um espaço, que ganha contornos e regularidades próprias a um modo de vida urbano, em oposição ao rural; que se organiza em relação à divisão técnica e social do trabalho; que trabalha em seu traçado a diversidade e a unidade, suprimindo os particularismos históricos em favor de um projeto de unidade nacional. As cidades estabelecem, pois, uma ordenação através de suas fronteiras físicas e simbólicas, para o viver de todos e de cada um de seus cidadãos, distribuindo-os, classificando-os. São espaços arquitetônicos e, ao mesmo tempo, simbólicos, e tendem, sempre, a diferentes modos de apropriação, a novos gestos de interpretação, por parte dos habitantes das cidades.

[...] se é verdade que existe uma ordem espacial que organiza um conjunto de possibilidades (por exemplo, por um local por onde é permitido circular) e proibições (por exemplo, por um muro que impede prosseguir), o caminhante atualiza algumas delas. Deste modo, ele tanto faz ser como aparecer. Mas, também as desloca e inventa outras, pois as idas e vindas , as variações ou as improvisações da caminhada privilegiam, mudam, ou deixam de lado elementos espaciais. [...] o caminhante transforma em outra coisa cada significante espacial (Certeau, 1994, pp. 177-178).

Esses espaços se articulam em relação a um tempo da produção, do consumo, como elementos estruturantes da construção de universos logicamente estabilizados (Pêcheux, 1990), da racionalização do uso do tempo, para adequar-se ao mundo do trabalho, ao exercício de práticas citadinas: um ensinar-aprender entre sujeitos de direito e do conhecimento de uma ordem econômica e social. Na cidade escola, o tempo ganha visibilidade e torna-se mensurável, controlável. Essa visibilidade, transformada em clareza, é condição para “dirigir as atividades [do sujeito urbano escolarizado] na boa direção”; para buscar administrar a tensão entre o viver e o conviver com o Outro. Trabalha-se um tempo, que se repete de modo próprio, como uma forma escolar: um tempo que, imaginariamente, contorna, apaga o provisório, o acaso, o imprevisto, as contradições de uma sociedade.

 

Referências bibliográficas

CERTEAU, M. de. A invenção do cotidiano: arte de fazer. Trad. Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

PÊCHEUX, M. O discurso: estrutura ou acontecimento. Trad. Eni P. Orlandi. Campinas, SP: Pontes, 1990.

VIDAL, L. De novo Lisboa a Brasília: a invenção de uma capital (séculos XIX-XX). Trad. Florence Marie Dravet. Brasília: Editora da UnB, 2009.